Nas eleições de 2026, parece que, mais uma vez, a religião veio forte. Como um beliscão do destino, conforme escrevi na primeira coluna, sob o manto da santa padroeira do Brasil. As forças de direita costumam trazer a religião para o debate eleitoral por uma via moral: aborto ou risco à liberdade religiosa.
Nas eleições de 1989, o candidato de centro-esquerda foi acusado falsamente de planejar o fechamento das igrejas evangélicas e de sugerir aborto para uma ex-namorada. Não eram verdades. Eu estudava no Colégio Granbery, da Igreja Metodista. Havia alunos de várias religiões (católicos, espíritas, sem religião) e evangélicos (batistas, presbiterianos, metodistas, assembleianos). Era entre estes que os boatos se coloriam de tons apocalípticos, sem motivo.
Mas, havia professoras e alunos mais reflexivos, menos reativos e ressentidos. Dentre outras, Marina Silva e Benedita da Silva, mulheres de origem afro-indígena, com posições mais voltadas à justiça e à igualdade social, mostram como é fractal e diversa a realidade entre evangélicos e política. Os boatos adquiriram força no segundo turno, disputado contra um candidato aventureiro. Collor de Mello ganhou a eleição, assumiu e foi um desastre. Sofreu um impeachment (1992).
Passaram-se trinta e sete anos. Estamos em outra eleição presidencial. Nenhuma igreja foi fechada. Goza-se de plena liberdade religiosa, embora, para algumas minorias, ainda exista perseguição e violência. Formou-se uma bancada cheia de pastores e líderes evangélicos. Mais de 100 políticos no Congresso Nacional, sem contar as câmaras municipais e estaduais. Igrejas se tornaram poderosos conglomerados midiático-econômicos, empresas de salvação, com gente ultrarrica e ideias estranhas, como a teologia do domínio.
Pastores e bispos entranhados nessas ideias afirmam que é preciso dominar todas as áreas da vida social, política, econômica e cultural em nome de Jesus Cristo. A expressão significa alcançar a submissão. De quem e do quê? Seria preciso, entre outras coisas, destronar a idolatria, dizem eles, associada aos cultos afro-brasileiros e católicos. A maioria deles apoia e gira em torno do candidato presidencial de extrema-direita.
É uma teologia pouco evangélica, se lermos o cristianismo como boa-nova aos necessitados, aos pobres, às viúvas, aos doentes e feridos. Daí vem a maior ameaça à laicidade estatal, de que falei um pouco na terceira coluna. Somos um país com regime político laico: o Estado não possui doutrina religiosa oficial. Por isso, pode defender as minorias e regular as disputas religioso-políticas. Nossa frágil laicidade deve ser sempre ampliada, e não diminuída.
Entre os evangélicos há gente honrada, com coração cheio de esperança, compreensiva em relação a outras fés religiosas e apreciadora do regime laico. Eles estão irmanados, com outros cristãos, no Sermão da Montanha, o coração palpitante da mensagem religiosa. Não há nele, ao que consta, apelo à violência, ao autoritarismo, mas à partilha, à paz. Os que sofreram fome e sede de injustiças serão saciados. Proclama-se a excelência do amor e do perdão. A religião popular está cheia de imagens evangélicas mais sublimes, oriundas dessa tradição teológica.
Na segunda coluna, trouxe à luz a relação entre Nossa Senhora do Rosário e o Congado, belíssima manifestação afrocatólica, muito presente em cidades mineiras. Ao ouvir os lamentos cantados ao som de tambores pela população negra escravizada, açoitada injustamente, a Santa se condoeu. Desceu do seu altar europeu, atravessou o oceano e veio enxugar as lágrimas, curar as feridas escaldantes e auxiliar o povo sofrido a encontrar forças para viver, trabalhar, amar e rezar aos seus deuses e deusas: os orixás, os inquices, os voduns, símbolos de uma memória ancestral viva, transmitida e reconstruída há séculos e presente em nossa cultura.
Nas mãos dessa santa está o rosário, invenção medieval, composto de contas de materiais diversos (madeira, pedra), que marcam orações e passagens-chave da vida de Jesus. Nossa Senhora do Rosário foi invocada no contexto da batalha naval de Lepanto, ocorrida em 1571. Forças papais-cristãs se confrontaram com as forças islâmicas do Império Otomano. O Brasil apenas dava seus primeiros suspiros de vida, mas, junto dela, vieram Santa Ifigênia e São Benedito, cujas imagens e sofrimentos despertaram simpatia entre a população escravizada. Eram santos de pele negra ou morena. Foram abrasileirados pela população escravizada. Esta palavra vem de mouro/moura, população muçulmana do Norte da África, que se expandiu para Portugal e Espanha. Tornaram-se objeto de profunda devoção afrocatólica.
Porém, foi apenas em 1717 que, de fato, uma santa negra se tornaria uma forte expressão popular. Pela antropologia e pela ciência da religião, sabe-se que um culto tão denso como o de Nossa Senhora Aparecida não nasce do acaso ou da vontade de uma instituição religiosa.
Revisitemos a bela narrativa mítica. Três pescadores, espremidos pela autoridade colonial, precisavam trazer peixes para o jantar aristocrático. Nada havia. Insistiram. Pescaram, primeiro, o corpo de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, enegrecida pela lama e pela fumaça das velas. Não havia cabeça. Voltaram a procurar. Encontraram-na. Veio a abundância de peixes. A imagem recebeu o carinhoso nome de Aparecida, aquela que aparece e auxilia. Com a santa negra, a fé católica ganhou os escravizados. O Brasil Colônia precisava de uma protetora que falasse como mãe do Brasil, mãe de pescadores, trabalhadores, mulheres e escravizados. Mãe do povo.
Não é daí que provém a ameaça à laicidade. Se a informação de que o candidato da extrema-direita iria tirar o título de padroeira é falsa, não o é a insensibilidade intelectual do grupo religioso evangélico que o apoia. Se non è vero, è ben trovato, escreveu Giordano Bruno, aforismo italiano que significa: “Se não é verdade, é bem contado”. Onde há fumaça, pode haver fogo e, com ele, dragões. Victório Galli (PP), pastor e ex-deputado, apoiador do candidato da direita, defendeu a legitimidade do Projeto de Lei 2.623/2007, de sua autoria, que visava retirar de Nossa Senhora Aparecida o status oficial de padroeira do país.
As agressões à Santa
Não perceber que uma tradição popular, como a de Nossa Senhora Aparecida, expressa a alma brasileira é uma imensa brutalidade. Uma agressão que se estende no tempo e no espaço. Em 12 de maio de 1978, um homem jovem invadiu a Basílica e furtou a imagem do nicho na basílica nacional. Perseguido por fiéis, jogou-a no chão. A estátua de terracota fragmentou-se em mais de 160 pedaços. A cabeça foi danificada severamente. Desde então, encontra-se protegida por vidro blindado.
Em 1995, no dia 12 de outubro, quando se celebra sua data festiva, durante o programa “O Despertar da Fé”, na TV Record, o bispo Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), desferiu chutes em uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Vociferou. Agrediu. O bispo Macedo teve de intervir e pedir desculpas.
Mais recentemente, com a ascensão da direita político-religiosa, estátuas públicas de orixás e de personalidades como Mãe Stella de Oxóssi (Salvador) sofreram pichações, decapitações e incêndios sucessivos. O vandalismo atinge as imagens de Iemanjá, mãe, mulher, deusa dos mares e dos pescadores, assim como as de Nossa Senhora Aparecida, e vai além.
Em janeiro de 2025, o terreiro de Umbanda Casa de Caridade Caboclo Pena Dourada, no bairro do Maracanã, na Zona Norte do Rio de Janeiro, foi invadido, roubado e depredado. Os criminosos quebraram imagens de Exu, orixás e os atabaques. Na entrada do espaço, deixaram uma Bíblia aberta com um folheto com referências a Jesus.
Por outro lado, a população injustamente escravizada viu na Santa Negra a possibilidade de fusionar e/ou cultivar seus deuses junto com os deuses do colonizador, ressignificando-os. Trezentos anos depois, em 1930, o papa transformou-a em padroeira do Brasil. Da pequena capela à grande basílica, pessoas das mais diversas crenças se entusiasmam nos dias de seus festejos.
Os evangélicos de mente aberta e coração pacífico, como no Sermão da Montanha, não se opõem à festa, mas podem sentir a questão essencial do Brasil: ter um país com uma mãe. Esta terra precisa ter, no sentido simbólico, uma mãe porque é o país das mulheres. São elas que recorrem aos serviços do Estado: escola, creche, trabalho com igualdade salarial, Sistema Único de Saúde, jornada de trabalho decente (5×2, pelo menos). As mães com filhos atípicos, as que sofrem violências, as que chefiam famílias, as meninas estupradas que engravidam de seus agressores, enfim, todas necessitam de mais justiça e igualdade social, de ter seus direitos garantidos, inclusive a interrupção legal da gravidez. Não à toa, em nossa língua, justiça e igualdade são palavras do gênero feminino.
Jesus é o Senhor do Brasil?
Crenças populares de religiões diferentes moldam a religião popular, verdadeira em sua manifestação. O ethos de um povo, o querer de um povo, forma uma ética, uma conduta. Não respeitar isso é não entender nada de sociologia, história, filosofia e política. É fazer o desrespeito pela instauração da violência. Quando o candidato da direita afirmou que iria decretar Jesus Cristo como Senhor do Brasil, ele falou a linguagem da teologia da guerra e da dominação. É uma fala desaforada por dois motivos simples.
Primeiro, nenhum ser humano pode dizer que o Brasil é de Jesus. É o cúmulo da soberba. Se uma pessoa possui a mínima noção da sua relação com o divino, nunca falaria que vai escrever as Tábuas da Lei. É Deus que pode instituir. A soberba salta à vista. Em segundo lugar, a fala do candidato da direita excluiu Nossa Senhora Aparecida. Poderia incluí-la, mas não o fez. O arauto da meritocracia que, na conversa da extrema-direita, vira efeito cínico, ergueu desajeitado, um objeto de crochê que lembrava a padroeira, mas desfigurado. Numa eleição tão politizada como vem sendo a nossa, cabe a discussão de qualquer tema, inclusive da cultura popular e da teologia do domínio.
Reconhece-se, por estudos, que a doutrina liberal — liberdade de escolha, de crescimento e talento individuais — só pode florescer quando as condições de educação, saúde, emprego e segurança estão garantidas para todas as pessoas, em especial as de baixa renda e poder econômico.
Quanto mais uma sociedade é desigual, menos vale a doutrina do liberalismo. Paulo Guedes, ex-ministro da Economia, durante a indecorosa reunião de governo, afirmou seu apoio aos sites de apostas e cassinos: “deixa o sujeito se f*der”. Não funciona assim. O exagero da liberdade individual provoca caos, anomia, como demonstrou um dos velhos mestres da sociologia, Émile Durkheim.
Paradoxalmente, a secular doutrina liberal, em termos políticos e econômicos, só se torna tangível em regimes democráticos de centro-esquerda. Na prática de governo da extrema-direita, diz-se: cada um que se cuide e o mercado capitalista abençoe. Privatiza-se o patrimônio público e, com isso, priva-se o povo de bem-estar social. Os mais fortes/endinheirados levam vantagem. O mercado sempre os abençoa. A milícia toma conta. Cada um com arma em punho, como num faroeste, completa a desgraça. Por isso, uma incômoda pergunta se faz: por que há gente — funcionários públicos, gente de baixa renda e de classe média — apoiando ideias hostis à igualdade social?
A complexa psicologia político-social do ressentido é uma das possíveis explicações. Ao menos para parte dessas pessoas. Em outra coluna, aprofundo as demais explicações. Alguns pensam assim: “Sempre pisaram em mim, engoli sapo, e na minha hora de pisar naquele que está abaixo, na hora de mandar/humilhar, quando vou empurrar sapo na goela alheia, querem mudar as regras do jogo? Baixei a cabeça e levei pancada à toa?”.
Imagine a seguinte estória. Havia dois vizinhos: um deles é feliz, prospera, mas o outro, apesar de não ser despossuído, não gosta. Um dia, ele acha uma lâmpada no gramado e a esfrega. Salta um gênio que só pode conceder um desejo. Mas tudo aquilo que porventura o homem desejar o vizinho terá em dobro. Sem titubear, pede com gosto: “Arranca-me um olho”.
Alguns acreditam que há uma hierarquia natural e cruel, um mundo selvagem. Mas não há, pois inventamos, faz tempo, a possibilidade de construir um mundo justo e mais igual e, assim, mais livre.
Por fim, o Papa Leão XV, em setembro de 2026, fez uma severa avaliação teológica: a extrema-direita não é uma expressão cristã autêntica. Poderia dizer: um dragão. No Apocalipse, um dos livros bíblicos mais complexos e interessantes pelo seu simbolismo e por sua narrativa mítica, vemos, no capítulo 12, a luta de um dragão tentando atingir, com a cauda, uma mulher vestida de Sol, em dores de parto, cujos pés estão sobre a Lua. Não consegue e cai rolando em profundo abismo.