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23/08/2026
Emerson Sena
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Deus morreu?

O enigma da injustiça e do sofrimento pessoal e coletivo desafia qualquer religião, visão espiritual ou laica
deus morreu coluna emerson sena
Reprodução / Magnific

O tema surgiu de uma tragédia, reportada pelo jornal Folha JF faz alguns dias: uma mulher grávida foi assassinada, com violência, por seu companheiro num bairro de Juiz de Fora. O absurdo do fato, somado a muitos outros similares, traz questões de ordem social-pública e do sentido do mundo. É desta última ideia que começo a refletir. Dizem que, se Deus não existisse, tudo seria possível. Mas ele existe e tudo, como esta tragédia, continua possível, o enigma aumenta. O enigma da injustiça e do sofrimento pessoal e coletivo desafia qualquer religião, visão espiritual ou laica.

Pretendo, entretanto, ir além da falsa oposição entre o ateísmo e a resignação cristã. No discurso coloquial, diz-se que ele existe, mas, dando livre-arbítrio, permite que tudo aconteça. No discurso ateu, ele não existiria. E tudo estaria resolvido. Ambas as posições possuem aborrecidos rosários de justificativas. Podem ter alguma razão, mas são pálidas diante de mais esse feminicídio e das dores e injustiças do mundo. Não quero ir pelo caminho do pessimismo, ruim e pouco útil para refletir essa e outras questões. Ó céus, ó vida. Era a expressão de uma hiena nos desenhos animados dos anos 1980. O homem é mau, a natureza humana é má, o mundo é mau: são ideias que mais matam a reflexão do que a promovem. Colunistas famosos, como Luís Felipe Pondé, trilham esses desertos estéreis. Despedaçam esperanças, desbotam a razão e estimulam o ressentimento cínico. Se as coisas são assim, estruturais, se tudo é desse jeito e não pode ser mudado (é da estrutura, é o mal…) só restaria retirar-se do mundo, ser um eremita, ou cruzar os braços, rir cinicamente – “Quer que faça o quê?”, disse um político a quem coube governar bem a população e o estado.

Uma adjetivação terrível: estrutural. Ela torna expressões como “maldade estrutural” porta-vozes de uma visão reacionária. Maldade a vemos, mas se pospomos o adjetivo, a tornamos, a expressão, matadora da capacidade de refletir e conversar sobre uma realidade, ainda que esta seja trágica, difícil, inominável. Há jargão, há adjetivação mais inútil? Dificilmente. Melhor caminhar junto com gente sensível e inteligente, como Machado de Assis, Friedrich Nietzsche e Conceição Evaristo. Ouvir as vozes dos vivos e dos mortos, claro, por meio de seus escritos.

Qual a relação entre essas grandes figuras? Talvez a questão do sentido e de Deus, uma palavra que virou um abre-tudo, serve para tudo. Deus proverá, Deus te abençoe, Deus me proteja, está em qualquer boca. Invocada por candidatos como acusação contra o oponente e como apoio para si, Deus dá o que falar, de toda forma. Um levantamento do Laboratório de Estudos Socioantropológicos em Política, Arte e Religião, da Universidade Federal Fluminense, mostra que 81% dos brasileiros (média geral) afirmam ser fundamental que seus candidatos acreditem em Deus, e atingem 89% das pessoas que ganham até 1 salário-mínimo, mas somente 57% entre os que ganham de 10 a 20 salários-mínimos. O nó da questão é interpretar esses dados. Que coisas dizem os números? Que a crença em Deus decide eleição? Perguntado pelo jornalista e mediador Boris Casoy, no último debate do segundo turno da eleição para a Prefeitura de São Paulo, em 1985, se acreditava em Deus, Fernando Henrique Cardoso criticou a pergunta por expor convicções íntimas. Criou-se, posteriormente, a lenda de que FHC teria perdido a eleição para Jânio Quadros por não ter respondido diretamente à pergunta, escondendo seu ateísmo. Deus vê tudo, diria alguém… Todo cuidado é pouco para não chutar aleatoriamente.

O aforismo 125, no livro “A Gaia Ciência”, de Nietzsche, contém a famosa assertiva: Deus morreu, que transformei em pergunta. Frase seca e dura que, ao lado da frase de Karl Marx, “A religião é o ópio do povo”, constitui, na nossa cultura, uma das expressões mais difíceis de interpretar, mas, ao mesmo tempo, uma das que mais possuem interpretações ruins, apressadas, sem reflexão, sem imaginação. Não se busca o todo no qual essas frases estão inseridas, menos ainda uma perspectiva interessante, capaz de tirar a conversa do beco sem saída. Na era da lacração, velocidade e impacto parecem um bom caminho, quanto mais, melhor. Mas não funciona bem assim. Os algoritmos do capitalismo são espavoridos, precisam ser enfrentados, mudados, desacelerados.

Alguns dizem: o filósofo estava errado, olha a quantidade de igrejas e de busca espiritual no mundo! Mas o “Deus morreu” nietzschiano não é algo empírico, mensurável. Se fôssemos medir por medir, um ateu poderia mencionar os fechamentos de igrejas na Europa e nos EUA e a transformação de templos em danceterias, bibliotecas, cafés, bordéis. Poderia, ainda, mostrar que, a longo prazo, desde o primeiro Censo de 1872, há queda contínua, em termos de autodeclaração, dos que se assumem cristãos (número total). O “Deus”, na perspectiva do filósofo alemão, é a ideia de um ponto absoluto no mundo: Moral, Deus, Ciência, Progresso, Razão ou outra coisa. No mundo moderno, a palavra última, o fundamento total e absoluto da realidade, seja qual for, deixou de existir como ideia organizadora do mundo. O pluralismo de valores emergiu. As perspectivas são plurais, não são equivalentes, podem ser complementares e/ou antagônicas, mas estão aí, postas por nós, para nós. Nietzsche não é relativista, mas perspectivista. Há uma grande diferença entre uma ideia e outra. É preciso, por isso, ler mais profundamente esse aforismo, que possui uma beleza literária tremenda:

O homem louco. — Não ouviram falar daquele homem louco que numa clara manhã acendeu uma lanterna, correu até o mercado e gritou incessantemente: “Eu procuro Deus! Eu procuro Deus!” — Como lá estavam muitos daqueles que não acreditavam em Deus, ele provocou uma grande gargalhada. […] Assim eles gritavam e riam uns para os outros. O homem louco saltou no meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “eu lhes direi! Nós o matamos, — vocês e eu! Todos nós somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? […] Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Há ainda um ‘acima’ e um ‘abaixo’? Não erramos como que através de um nada infinito? O espaço vazio não nos sopra a pele? […] Ainda não ouvimos nada do barulho dos coveiros que enterram Deus? Ainda não sentimos nada do cheiro da putrefação divina? — também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus permanece morto! E nós o matamos! Como nos consolaremos, nós, assassinos entre os assassinos? (O travessão não é do ChatGPT…).

Matamos Deus. Pela gramática e seu abuso indiscriminado? No romance “Memorial de Aires” (1908), Machado de Assis escreveu: “Tudo é possível debaixo do sol, e a mesma coisa sucederá acima dele, Deus sabe.” Lá e cá, Ele vê, mas tudo acontece. Ele se retira do mundo, e observa. No conto “Olhos d’água”, a escritora mineira Conceição Evaristo escreve: “Minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro.” Deus viu isso. Ao escrever sobre a fome e a miséria dos anos de infância, a escrevivência da romancista mineira traz a força de uma outra perspectiva, a vivencial. Ambos os escritores constituem a extrema riqueza da inteligência negra brasileira, que, das condições mais duras e trágicas da existência social, traz, em seus contos e romances, uma forma de conversar sobre o mal, a dor, a injustiça, a fome, a desesperança, que não é pueril nem clichê.

Talvez o filósofo Nietzsche esteja certo: o segredo da metafísica, a força da ideia do divino estaria na gramática e em seu uso repetido, diário, naturalizado. A frase “Deus é”, “Deus existe” e tantas outras criam a sensação de existência e de estabilidade da certeza. Mas ela se desfaz diante da dor, da tragédia, do inominável, do terror. O que significam essas frases? A literatura filosófica, a filosofia como literatura, a antropologia, a ciência da religião, podem nos trazer uma perspectiva menos óbvia, que não passa pelas alturas estonteantes do espiritual, do religioso ou do místico, nem pela ciência dura, pelo empírico, pelo estatístico, mas nos mostra algo simplesmente humano, misteriosamente humano.

Retorno ao início do texto. Que fazer para fazer cessar a tragédia de tantas mulheres assassinadas cruelmente por (ex-)maridos, namorados e familiares pelo fato de serem mulheres? Rezar aos deuses ou a Deus — e acionar a gramática — sempre é possível. Mas, no dia a dia, são insuficientes. A razão humana clama por soluções. Há boas e más. Delegar armas às mulheres, por exemplo, é falsa solução. Ao contrário, piora. Dentre outras propostas, a de construir políticas públicas de apoio àquelas que sofrem violências — casa, emprego, apoio multiprofissional (psicológico, serviço social, médico, jurídico) — é eficaz, e exigiria intervir no neoliberalismo e no capitalismo financeiro, que pedem enxugar o Estado (sempre para os outros, os que precisam), mas, por outro lado, buscam recursos públicos para si. Os grandes, em especial. 

Na mitologia poética do Congado, belíssima manifestação afrocatólica, Nossa Senhora do Rosário, uma devoção medieval, se condói tanto dos lamentos dos homens e mulheres escravizados, escalavrados e açoitados injustamente, cantados e ritmados por tambores, a ponto de descer do altar, atravessar o oceano, vir em seu auxílio, bailar junto, enquanto consola o povo sofrido. 

Uma mulher cantou uma vez, faz mais de mil anos, um belíssimo poema: “Alegro-me em Deus, manifestou o poder do Seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.”. Em vez de engessá-lo num dogma ou numa crença burocrática, prefiro trazê-lo para o horizonte das mais sábias dentre as tarefas humanas: a construção da justiça e da equidade. Deixo aos leitores uma tarefa mais simples, não menos útil: procurar onde está esse texto e quem é a poetisa. 

Se Deus (deuses, deusas, forças místicas) quiser participar e ajudar a construir uma cidade mais justa e de bem-estar social, bem-vindo será.

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