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09/08/2026
Emerson Sena
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As religiões são um beliscão do destino?

Religiões são como sacudidas: põem um sentido, antes ausente, quando a realidade vivida, qual for, é despedaçada por sofrimentos ou se esfumaça no tédio
religiões no Brasil
Reprodução / Magnific

A frase talvez consiga capturar sua atenção. A concorrência com IA, sensacionalismo, simulacros, é imensa. O polegar incansável desliza, o tempo todo, a tela, tão lisa. Os olhos não conseguem ler, exceto enxergar letras. O tema põe quem lê e quem escreve, em apuros. O Folha JF convidou vários especialistas e propôs colunas interessantes, mulher, meio-ambiente, pluralismo religioso.

Restou-me entrar neste labirinto com tênue fio de seda. A frase-gancho do título fisgará algum leitor. Ela está no ensaio de Clifford Geertz, antropólogo, que, por sua vez, leu em William James, psicólogo e filósofo (“o beliscão individual do destino”), ambos estadunidenses.

Religiões são como sacudidas: põem um sentido, antes ausente, quando a realidade vivida, qual for, é despedaçada por sofrimentos ou se esfumaça no tédio.

Mas, a religião (religiões) é ambígua, são ambíguas. Pode tanta coisa, inclusive beliscar, como faz o pensamento crítico-reflexivo. Escreverei sobre quatro beliscões.

Os primeiros beliscões

Será religião, o culto que pede pix em troca da promessa da cura-prosperidade, que discrimina fieis por classe social/ocupação, que faz leituras bizarras de textos bíblicos?

Será a face do mundo evangélico apenas a que frequenta a mídia, a branca masculina, plastificada, vociferante, rascante, que, dos púlpitos luxuosos, joga pecado e moral sempre nos outros, que viaja em jatinhos, que acumula dinheiro sem fim e olha com desprezo as pessoas em situação de rua?

Se alguém lê o Sermão da Montanha, o coração moral do cristianismo, ficará com justas interrogações.

A face do mundo evangélico, em sua maior média, é feminina, negra/parda, periférica, de classes trabalhadoras em lugares simples. Fonte? Dados do Censo-2022 (IBGE) e artigos especializados.

Terceiro beliscão. No dia 25/05, Leão XIV pediu, com ênfase sincera, perdão (João Paulo II também o fez), pela escravatura forçada de povos indígenas e africanos. Leão XIV expressou dor profunda pela ferida perpetrada/consentida pela Igreja. Foram atingidas as cosmologias espirituais dos povos indígenas e africanos. A encíclica do continuador do Papa Francisco, Magnifica Humanitas, abordou escravidão, inteligência artificial, com citação de Gandalf, personagem de “Senhor dos Anéis”, obra de J.R.R. Tolkien.

Semeio questões, sem esperar resposta crua. Parafraseio Geertz: vejo a religião em termos plurais, não por saber mais sobre o assunto (e eu não sei) que aqueles que vão a algum culto ou acreditam em algum dogma ou mais que grandes especialistas, nem porque a religião tenha mudado (ela mudou e não mudou). Vejo-a (as vejo), em outras perspectivas porque outros destinos, outros extremos emergiram (o poder de igrejas que distorcem eleições, como reconheceu o TSE).

O último beliscão

Que tipo de religião expressa a mentalidade que afirma ser Exu/Orixás, demônios? Caberia pensar assim, diante da dignidade humana, do direito de crença do outro, do pluralismo de valores e religiões, conquistas da república brasileira? Não haveria – e há – outras formas de pensar sobre a imagética de outras religiões? A sabedoria popular dirá: “Uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa”.

As invasões de terreiros, destruição de imagens, a violência policial contra professores que – embasados em lei federal de 2003 – ensinam cultura afro-brasileira nas salas de aula, desvelam uma ferida persistente que acompanha nossa república desde sua fundação. Os protestantes/evangélicos e os espiritas sofreram estigmas e violências. Hoje são reconhecidos socialmente, gozam de legitimidade e contam com grande poderio político e institucional. No entanto, muitas minorias religiosas ainda não usufruem de seus direitos fundamentais.

As religiões no Brasil

Apesar das múltiplas violências, o Brasil aprendeu a falar as muitas línguas da fé: pentecostais, católicas, protestantes, budistas, espíritas, umbandistas, indígenas, umbandistas, candomblecistas, ateístas. Essa convivência, contudo, ainda é atravessada pela intolerância, pelo racismo e pela violência, que atingem com especial intensidade as religiões de matriz africana.

Se o pluralismo de valores e de religiões é a condição existencial do mundo moderno e contemporâneo que vivemos, é preciso pensá-lo em quatro dimensões implicadas umas com as outras: 

  • (1) jurídica, que remente a proteção de minorias e as garantias contra violações;
  • (2) institucional, que liga-se a isonomia de tratamento, ou seja, o Estado não pode favorecer, nem dificultar uma fé religiosa ou igreja, nem direta, nem indiretamente, por exemplo, com ampliações de benefícios fiscais e isenções tributárias;
  • (3) social, que passa pela redução do preconceito, por projetos de convivência mútua, pela educação  e pela redução da violência;  
  • (4) comunicativa, que envolve o reconhecimento da legitimidade das experiência religiosas. Com ela podemos aprender muito sobre nossas próprias experiências.

A discussão desloca-se, portanto, do beliscão do destino, para questões de igualdade concreta de direitos e de convivência democrática. ao deixar o beliscão nos fazer pensar e a agir no sentido de ampliarmos o diálogo, a compreensão mútua e o respeito à ordem jurídica, seremos aqueles que ajudam a construir uma república melhor.

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