Um portal a serviço de Juiz de Fora

18/09/2026
Anderson Narciso
Compartilhar Matéria

Antes de Rita Von Hunty: Guilherme Terreri conta como personagem começou a nascer no teatro

Em entrevista ao Folha JF antes de apresentações em Juiz de Fora, artista relembra os primeiros passos na linguagem drag dentro da Cia. Melodramática e fala sobre improvisação, universidade e o retorno aos palcos
Rita Von Hunty
Imagem: Divulgação.

Antes das aulas que alcançariam milhões de pessoas pela internet, dos vídeos, debates e da consolidação de Rita Von Hunty, Guilherme Terreri Pereira já experimentava no teatro alguns dos elementos que mais tarde fariam parte da construção da drag queen.

E essa história passa diretamente pela Cia. Melodramática, grupo com o qual Guilherme chega a Juiz de Fora neste fim de semana para apresentar “Melodrama da Meia-Noite”. As sessões acontecem no sábado (19), às 20h, e domingo (20), às 19h, no Teatro Solar.

Em entrevista ao Folha JF, Guilherme revelou que pouca gente conhece essa ligação entre a companhia e os primeiros passos da personagem.

“Pouca gente sabe, mas a Rita surge nesse contexto do melodrama. Ainda não com o nome Rita Von Hunty, mas já como uma pesquisa com a linguagem da arte drag”, conta.

Uma personagem feminina antes de Rita Von Hunty

Guilherme faz parte da Cia. Melodramática desde sua criação. A origem do grupo está ligada à formação universitária e às aulas do professor e diretor Paulo Merisio, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

O próprio Merisio já documentava academicamente, em 2010, experiências de “Melodrama da Meia-Noite” com alunos do curso de Teatro da Unirio, dentro de uma pesquisa sobre a linguagem melodramática.

Segundo Guilherme, durante as experiências do grupo com o melodrama francês, Merisio propunha também explorações inspiradas pelo universo cinematográfico de Pedro Almodóvar.

Foi nesse contexto que Guilherme começou a experimentar uma personagem feminina.

“Lembro de uma das histórias que a gente improvisava, que ela era uma travesti e moradora de um prédio em Barcelona e tinha um namorado que era um padre. Então, bem esse universo almodovariano. Eram os meus primeiros passos de aproximação com a linguagem drag na cena.”

A Rita que o público conhece hoje ainda não existia, portanto, mas uma parte da investigação artística que contribuiria para sua construção já estava acontecendo no palco.

Uma companhia que nasceu da universidade

Ao recordar a formação da Cia. Melodramática, Guilherme ressalta que está no projeto desde o início, quando o grupo ainda carregava o Rio de Janeiro no próprio nome.

Ele lembra que os integrantes tiveram contato com a pesquisa de Paulo Merisio durante a graduação em Artes Cênicas. A experiência despertou interesse entre os alunos e acabou ultrapassando os limites de uma disciplina universitária.

O resultado foi uma pesquisa artística que, segundo Guilherme, continua há cerca de 15 anos.

A nossa pesquisa está acontecendo há 15 anos, supervisionada pelo Paulo. Ela não é exatamente uma pesquisa formal dentro de um departamento, mas é uma pesquisa paralela. É um grupo, uma companhia que se forma e segue pesquisando uma linguagem e a relação que essa linguagem estabelece com a sociedade.

Para ele, manter uma companhia por tanto tempo também representa resistência diante das dificuldades enfrentadas por quem produz teatro no Brasil.

É muito difícil produzir um teatro, uma companhia longeva, sem apoio. Está cada vez mais difícil fazer teatro no nosso país.

image 3

No espetáculo, ninguém sabe exatamente o que vai acontecer

“Melodrama da Meia-Noite” é construído a partir da improvisação. Inspirada no melodrama francês do século XIX, a montagem utiliza personagens característicos desse universo, mas as histórias surgem durante a própria apresentação.

Guilherme explica que o improviso já está, de alguma maneira, presente em qualquer experiência teatral. Uma luz pode apagar, um elemento pode falhar ou alguém da plateia pode interferir.

Na companhia, porém, essa imprevisibilidade se transforma na própria linguagem do espetáculo.

Quinze anos na estrada fazem com que a gente desenvolva um repertório e uma paixão. Repertório é essa capacidade de ver, escutar, entender que algum ator, alguma atriz está propondo algum caminho. E a paixão diz respeito a sempre tomar os caminhos propostos e descobrir que eles levam a novos lugares.”

É essa renovação, segundo ele, que mantém o interesse do próprio grupo.

“Acho que a gente se mantém interessado e interessante para o público porque o nosso interesse na pesquisa se renova a cada apresentação.”

Plateia vira parte do espetáculo

E quem estiver no Teatro Solar não ficará restrito ao papel tradicional de espectador.

A proposta recupera uma relação mais direta entre palco e público. Durante “Melodrama da Meia-Noite”, a plateia assume uma espécie de júri popular. Se não gosta do que vê, pode demonstrar. Se aprova, também.

Na dinâmica divulgada pela companhia, bolas de meia representam a reprovação e moedas simbolizam a aprovação.

A nossa ideia de plateia é tentar instaurar a cena popular”, explica Guilherme. “A plateia assiste como alguém que está assistindo. Então, quando ela gosta, ela te avisa e, quando ela não gosta, ela te avisa também.

Para o artista, essa participação recupera uma característica histórica associada ao surgimento do melodrama, quando o público se manifestava diante daquilo que recebia no palco.

“Quem conhece Rita Von Hunty vai ver uma outra Rita”

A própria Rita também muda quando entra nesse jogo.

Guilherme explica que a estrutura cria diferentes camadas: há o ator interpretando uma drag queen que, por sua vez, assume personagens definidos durante a improvisação.

Quem conhece Rita Von Hunty e for assistir ao melodrama vai ver uma outra Rita. Isso é divertidíssimo.

Segundo ele, não é raro que Rita interprete justamente figuras que funcionam como seu avesso.

Eu faço vilãs, e todas as minhas vilãs costumam ser da classe dominante, costumam ter desprezo pela classe trabalhadora, costumam ser mesquinhas, asquerosas. Ou então eu faço o professor que tem ódio pela educação popular. Aí vira uma sátira, como se fosse um avesso da Rita Von Hunty.”

image 4

“O teatro é uma arte da presença”

Para Guilherme, voltar ao palco também oferece algo diferente do trabalho que desenvolve em aulas, vídeos, colunas e debates.

O teatro é uma arte da presença.

Ele define essa experiência pela ausência de intermediação tecnológica entre artista e público.

Não há uma tela, não há um aplicativo, não há um software. É a definição de uma experiência que se impõe. Não dá para pausar, não dá para assistir em outra hora, não dá para começar hoje e terminar amanhã.

Em um momento que ele próprio descreve como de “desvitalização”, Guilherme enxerga o teatro como convite para ocupar espaços, integrar coletivos e compartilhar uma experiência.

Para mim, está sendo fundamental. É uma experiência de vitalização.

E existe uma expectativa particular para as duas apresentações deste fim de semana.

Juiz de Fora é uma cidade muito querida para nós. Acredito que vai ser uma experiência deliciosa. Estou ansioso, não vejo a hora de encontrar o público e o público encontrar o melodrama”, afirma.

Depois da passagem por Juiz de Fora, Guilherme adiantou ao Folha JF que a companhia terá uma temporada em Campinas e encerrará o ano em Belo Horizonte.

Serviço

Melodrama da Meia-Noite, com Rita Von Hunty
Sábado (19), às 20h
Domingo (20), às 19h
Teatro Solar, Avenida Presidente Itamar Franco, 2104, São Mateus
Ingressos disponíveis pela Sympla. A bilheteria abre uma hora antes de cada apresentação.

Folha JF - Um portal a serviço de Juiz de Fora

Siga o Folha JF

Fique por dentro de tudo que acontece em Juiz de Fora, siga o nosso instagram @folhajf

Últimas notícias:

Após uma semana de frio e chuva, termômetros sobem gradualmente e podem chegar aos 24°C no domingo (20); não há previsão de chuva para os dois dias
Água invadiu pátio, banheiros e atingiu área da cozinha que está em obras; moradores cobram providências da Prefeitura de Lima Duarte
Em entrevista ao Folha JF antes de apresentações em Juiz de Fora, artista relembra os primeiros passos na linguagem drag dentro da Cia. Melodramática e fala sobre improvisação, universidade e o retorno aos palcos
Direção acionou a Polícia Militar após tomar conhecimento de gravação feita por aluno menor de idade; Conselho Tutelar foi comunicado e Secretaria de Educação acompanha o caso
FLIJF acontece de sexta (18) a domingo (20), na Loja Abertha – Moinho, com lançamentos de livros, rodas de conversa, música, dança e atividades para crianças