A história da humanidade vem sendo reconstruída à nossa volta e os afazeres diários, como o ir e vir do trabalho, o estudo e as tarefas domésticas, muitas vezes, nos impedem de perceber a transformação internacional que muda, aos poucos, a realidade local e a forma como enxergamos o mundo.
O sistema internacional é formado pelas relações que Estados e organizações internacionais estabelecem entre si e foi compreendido durante muito tempo pela ótica de uma teoria conhecida como realismo político, segundo a qual, os Estados conduzem a política externa a partir de seus próprios e exclusivos interesses.
As transformações ocorridas na vida internacional a partir dos anos 90 deram origem ao fenômeno da globalização de mercados, tornando a relação entre Estados, cada vez mais, interdependente na medida em que as fronteiras nacionais foram sendo paulatinamente diluídas pelo fluxo de pessoas, bens e capitais. A emergência dessa nova ordem internacional gerou uma transformação radical na participação dos Estados na vida internacional dando origem, inclusive, ao movimento inverso, o da desglobalização, orientado pelo protecionismo alfandegário, entre outros fenômenos, ora em curso.
Apesar do influxo do protecionismo recente, a abertura de mercados e fronteiras ainda se mantém e trouxe consigo o incentivo à participação de novos atores subnacionais como os municípios, os estados-membros, as empresas e as organizações não governamentais que passaram a reivindicar seus interesses diretamente no tabuleiro da geopolítica internacional.
A doutrina especializada refere-se ao conjunto de ações internacionais praticadas por esses entes pelo nome de paradiplomacia, diplomacia social ou diplomacia subnacional, entre outros, correspondendo a um modelo de atuação internacional do qual participam os estados-membros como Minas Gerais, cidades como Juiz de Fora e entidades da sociedade civil como a Associação Comercial do nosso município, por exemplo.
No caso de Juiz de Fora e da Zona da Mata mineira, essa articulação sinérgica de interesses internacionais visa a projeção externa da cidade e da região, constituindo um pilar fundamental de conversão de sua vocação histórica para o desenvolvimento em soberania sub-regional, a partir da proatividade de suas lideranças.
Para atingir tais objetivos, é preciso desenvolver uma mentalidade internacionalista na região através de estudos, pesquisas e análises de mercado por meio de instituições especializadas a fim de fornecer aos atores subestatais as informações necessárias à sua atuação no exterior.
Evidências históricas da prática da Diplomacia Paraestatal em Juiz de Fora e região
No final do século XIX, a cidade destacava-se pelo pioneirismo ao conseguir alavancar projetos empreendedores que aliaram a presença de capital internacional, a engenharia de vanguarda para criação de infraestrutura de desenvolvimento econômico e social com a Companhia União e Indústria e a Usina Hidrelétrica de Marmelos Zero, conectando a produção regional aos circuitos do comércio atlântico.
Diante das transformações nas cadeias globais de suprimento e valor e da desindustrialização relativa que atinge as indústrias da Zona da Mata face a transferência de ativos industriais para o exterior desde os anos 90/00, é imprescindível que os atores paraestatais do município e da região tomem iniciativas de se apresentar ao exterior como parte de uma nação empreendedora como o Brasil.
A inserção internacional de Juiz de Fora e da Zona da Mata mineira não é um fenômeno recente, trata-se de um processo cumulativo que, ao longo das últimas décadas, articulou o poder público municipal, a universidade federal e a iniciativa privada na busca por cooperação técnica, novos mercados e modelos de governança urbana.
Entre os anos 1980 e os dias atuais, diferentes gestões municipais adotaram estratégias de aproximação externa alinhadas ao contexto de suas épocas. Paralelamente à ação governamental, a iniciativa privada e as entidades de classe desempenharam papel determinante. Entidades como a Associação Comercial e Empresarial de Juiz de Fora (ACEJF), a representação regional da FIEMG e a Agência de Desenvolvimento de Juiz de Fora e Região (ADJFR) promoveram e ainda promovem missões comerciais e rodadas de negócios no Cone Sul, na Ásia, na Europa e na América do Norte, buscando inserir os setores têxtil, de confecção e metalmecânico nas cadeias globais.
No campo do conhecimento, a fundação do Centro Regional de Inovação e Transferência de Tecnologia (Critt) pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) vem contribuindo decisivamente para estabelecer uma ponte entre a pesquisa científica local, a proteção de patentes e a cooperação técnica com instituições estrangeiras.
A região segue tendo uma vocação cosmopolita, todavia, por si só, ela não parece ser forte o bastante para alavancar e promover o desenvolvimento sustentável do maior projeto regional em curso por aqui, o aeroporto regional de Goianá-Rio Novo, um projeto visionário de grande potencial turístico e empresarial que, por enquanto, encontra-se esvaziado ou subutilizado à espera de um esforço decisivo das comunidades regionais para que seja definitivamente implantado.
Os caminhos para a região
A verdadeira inserção internacional de Juiz de Fora e da Zona da Mata nas cadeias globais de geração de valor não será obtida por ações formais nem por cartas de intenções burocráticas.
Já dissemos acima que a cidade tem um história de protagonismo na diplomacia subestatal voltada ao progresso da região, todavia, vimos, também, que os resultados alcançados até aqui estão aquém das capacidades presentes nos municípios da região.
Conectar os nossos 142 municípios e mais de 2 milhões de cidadãos às cadeias globais de valor exige superar a passividade histórica e transformar os conselhos municipais de desenvolvimento e as sociedades locais em verdadeiros “Itamaratys da cidadania“.
Toda a densidade acadêmica, inovação tecnológica e iniciativas institucionais territoriais perdem tração se a região continuar privada dos canais logísticos fundamentais para a circulação de pessoas, negócios e investimentos. Referimo-nos, principalmente, às nossas estradas e acessos vergonhosos da região até o Aeroporto Regional.
O Aeroporto Regional da Zona da Mata, em Goianá, é o símbolo mais urgente desse descompasso entre os esforços paradiplomáticos das instituições e lideranças da região e os resultados efetivos na construção de tais acessos e na atração de investimentos para a região aeroportuária, jogo de soma zero.
Manter um ativo estratégico de altíssimo potencial logístico, turístico e empresarial subutilizado ou esvaziado em plena região da Zona da Mata é uma contradição inaceitável diante da sua vocação histórica para o desenvolvimento sustentável.
Integrar o ecossistema produtivo da região, atrair capitais alinhados aos padrões internacionais de desenvolvimento e reter o nosso capital humano dependem diretamente da resolução dessa equação e a paradiplomacia já existente e atuante por aqui, precisa ser prestigiada e apoiada pela sociedade regional.