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01/11/2026
Emerson Sena
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Guerra espiritual e política: A Extrema-Direita em desencanto

A força retrógrada e autoritária desse movimento aparentado com o fascismo se revela no inconformismo e ódio com a derrota
Guerra espiritual e política: a extrema-direita em desencanto
Imagem gerada pela Inteligência Artificial

Nas duas últimas colunas, de 04 de outubro e 18 de outubro, trouxe reflexões sobre figuras religiosas, políticas e econômicas. Trarei hoje uma palavra sobre a noção de guerra espiritual e a extrema-direita. Teologicamente, é uma noção estreita e bélica, nascida de uma leitura distorcida e ressentida de algumas passagens bíblicas do Antigo e do Novo Testamento que falam de combate e de luta contra os idólatras e os demônios.

A noção contemporânea de guerra espiritual ganhou força nos anos 1980 e 1990 nos EUA e no Brasil, em círculos carismáticos católicos e evangélicos. Pregações em grupos de oração e templos diziam que o mundo e as famílias estariam sendo atacados pelo príncipe das trevas e que era necessário reagir, tomar espaços para o Senhor Jesus. A pobreza, a miséria e outros males sociais seriam frutos dessa presença demoníaca. É uma leitura religiosa simplória – no sentido negativo – que ganhou popularidade entre os meios cristãos. Essa desleitura casa-se perfeitamente com as posições dos grupos de direita extremista que cresceram nos últimos anos.

A extrema-direita contemporânea nasceu das cinzas do derrotado nazifascismo dos anos 1920-1945. Ela cresceu à medida que o almejado Estado de bem-estar social se enfraqueceu. A crise fiscal dos anos 1970 e a reorientação do capitalismo em direção ao regime de financeirização e aplicação financeira completaram um quadro complexo. O desenvolvimento econômico se concentrou, produziu pobreza e miséria. Politicamente, gerou forte ressentimento social e, com isso, alimentou as correntes extremistas que fagocitaram setores da direita democrática. Esse processo se intensificou a partir dos anos 2000. No Brasil, uma das expressões mais duras da extrema-direita é o bolsonarismo, uma mistura entre seita religiosa – em sentido de grupo que se considera eleito, puro, fechado sobre si – e partido político extremista.

O liberalismo conservador ou neoliberalismo, que vingou a partir dos anos 1970, se diz excelente gestor econômico, mas, na verdade, cortou direitos sociais, privatizou o que podia, vendeu patrimônio público e não produziu desenvolvimento econômico mais igualitário, menos concentrador. Tampouco deu maior qualidade aos serviços públicos; ao contrário, degradou-os. Sequer o que foi privatizado melhorou. Nos anos 1990, FHC privatizou nossas empresas de telecomunicação. Hoje você tem uma internet ruim e cara. E as empresas que tomam dinheiro emprestado do BNDES, banco estatal, nos devolvem serviços ruins.

As promessas neoliberais fracassaram. Todo mundo seria próspero porque seria empresário de si mesmo, seu próprio patrão, tendo seu próprio horário. Uma utopia que se tornou distopia. Os imigrantes, as esquerdas democráticas, os sindicatos, a natureza, os cristãos sociais, os afro-brasileiros, as minorias se tornaram culpados morais. Uma solução tão ingênua quanto inútil. À medida que o ressentimento cresceu nas classes medianas, cresceu a popularidade de partidos extremistas de direita e correntes religiosas como essas, que defendem a noção de guerra espiritual. Elas acionam o pânico moral, que, na verdade, é mais embuste que realidade.

Nos anos 1970, os bilionários eram muito poucos. A pobreza absoluta não era tão espalhada. Hoje, há 3.428 pessoas bilionárias que, juntas, possuem um patrimônio de 20,1 trilhões de dólares, segundo a Forbes de 2026. Os 10% mais ricos, aproximadamente 556 milhões de adultos, controlam 75% de toda a riqueza do planeta e capturam 53% de toda a renda gerada no mundo. A metade mais pobre, 2,8 bilhões de adultos, controla apenas 2% da riqueza global e 8% da renda mundial. Essa realidade está distribuída por todos os países, inclusive os EUA. No país da liberdade e do sonho americano, a pobreza e a fome aumentaram e as liberdades são violentadas com a ascensão da extrema-direita ao poder (Donald Trump).

Um dado da concentração de poder e de renda chama a atenção. Com base nos levantamentos da Forbes e em estimativas de mercado, algumas lideranças religiosas brasileiras acumulam patrimônios elevados. O Bispo Edir Macedo (Igreja Universal / Grupo Record) e sua família possuem patrimônio estimado pela Forbes em 1,9 bilhão de dólares. Também são frequentemente mencionados em estimativas de riqueza o Apóstolo Valdemiro Santiago (Igreja Mundial), o Missionário R. R. Soares (Igreja Internacional da Graça), o Pastor Silas Malafaia (Assembleia de Deus Vitória em Cristo) e o Apóstolo Estevam Hernandes e a Bispa Sônia (Igreja Renascer em Cristo), embora os valores atribuídos a eles não tenham comprovação patrimonial equivalente. Difícil conciliar isso com um dos mais exigentes mandatos evangélicos ditos por Jesus de Nazaré. Quando um jovem hebreu rico queria acompanhá-lo, ouviu isto: “Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres teus bens, então, vem e segue-me”. O jovem ficou triste, diz a narrativa, e ficou com os bens.

Segundo estudos sobre a desigualdade mundial, a riqueza dos bilionários cresceu aproximadamente 8% ao ano nas últimas décadas, enquanto a renda dos mais pobres é amplamente consumida pela subsistência (comida e moradia), dificultando o acúmulo de patrimônio. Uma simples taxação de parte da renda dos milionários e ricos, deixando de fora a classe média, poderia trazer melhor distribuição de renda e poder e melhor desenvolvimento social. Mas sabemos que politicamente isso é feito pelo Estado, pelas instituições republicanas, e não é nada fácil. A via democrática e republicana exige convencimento, diálogo, votação. Todas as vias autoritárias e totalitárias dão com os burros n’água. A União Soviética, depois de Stálin, testemunhou isso. Após 1989, com a Queda do Muro de Berlim, a Rússia passou para um neoliberalismo selvagem que corroeu suas instituições. Hoje é uma ditadura com Putin. E com uma igreja ortodoxa ultraconservadora. A Coreia do Norte, um regime supostamente comunista – mas de comunismo mesmo nada possui –, mantém eleições sem competição política efetiva, com resultados oficiais próximos a mais de 90% favoráveis ao ditador. Uma piada.

O perdedor das eleições brasileiras, Flávio Bolsonaro, investigado no STF em inquéritos, deixou o Brasil e divulgou uma carta em que se proclamava presidente eleito, sem apresentar provas de fraude eleitoral. Foi pressionado pelo Governo Trump a mudar a versão e a se dizer “líder do Brasil”. A declaração não recebeu o apoio de quase nenhum aliado político. Os Bolsonaro representam essa extrema-direita no Brasil. Ela tem força eleitoral. Duvido que uma direita moderada e democrática tenha sucesso eleitoral sem a força do ressentimento e do neofascismo. Aliás, a direita moderada e democrática se aliou ao governo Lula em 2022 – Alckmin e Tebet – e, em 2026, lhe deu apoio, como o fez Miguel Reale Júnior.

A força retrógrada e autoritária desse movimento aparentado com o fascismo se revela no inconformismo e ódio com a derrota: circulam denúncias de listas de boicote a comércio e profissionais liberais, de demissão de trabalhadores que tenham votado em Lula. Também circularam relatos de violência e discriminação política envolvendo indígenas, trabalhadores e pessoas em situação de vulnerabilidade. Na manifestação bolsonarista na Barra da Tijuca, ocorrida um dia antes do segundo turno, a manifestação bolsonarista na Barra da Tijuca, ocorrida um dia antes do segundo turno, um jovem negro, fantasiado de demônio, estava evolvido em correntes de plástico, conduzido por um homem branco de meia-idade, que vociferava contra o PT. No dia 25 de outubro, dia da eleição, uma eleitora bolsonarista ergueu a mão direita espalmada, a saudação nazista, um crime federal. São infâmias sem precedentes.

Mas, se há esse lado feio, ruim, há o que é belo: o movimento de estrondosa virada no segundo turno das eleições. Um movimento social amplo e capilarizado, que lembra as Diretas Já de 1983-1984, ocorreu. Multidões tomaram as ruas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e diversas outras cidades brasileiras. Estudantes, sindicatos, trabalhadores, movimentos sociais, negros e indígenas, bispos, padres e pastores, religiões afro-brasileiras, grupos de cristãos leigos, artistas, associações científicas e de professores, sem serem convocados pelo Palácio do Planalto, tomaram a frente e organizaram protestos contra a extrema-direita e em favor da reeleição do governo Lula. E vimos nas redes sociais centenas de vídeos mostrando idosos votando, amparados pelos seus netos, filhos e amigos, e pessoas com deficiência. Vimos jovens e crianças. Uma aliança intergeracional belíssima. Vimos a retomada dos símbolos nacionais, como a camisa verde-amarela.

No último debate, o candidato derrotado havia debochado da idade, da voz, do dedo amputado do presidente reeleito. O bolsonarismo afirma combater o mal que a esquerda representaria, mas, no fundo, dessa forma, ao humilhar, perseguir e demitir trabalhadores que votaram no oponente político, mostrasse que ele é, de fato, a peste, a serpente venenosa que está no jardim, pronta para inocular veneno nas instituições republicanas. O bolsonarismo, ainda que momentaneamente órfão, está vivo e se esgueira, não nas sombras, mas na luz do dia.

Se a noção de guerra espiritual é teologicamente deturpada, a de  guerra política justa é a que devolve a justiça e a igualdade para todos, para as minorias, e é a que faz respeitar a Constituição em todo o seu esplendor. Uma batalha foi ganha, outras virão.

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