Na coluna passada, refleti sobre duas figuras religiosas, Nossa Senhora Aparecida e a Teologia do Domínio, que surgiu em parte do mundo evangélico. Essa corrente defende submeter tudo e todos ao senhorio de Jesus. Há uma decorrência lógica desse pressuposto: não haverá espaço para outras manifestações culturais-religiosas (afrocatólicas, indígenas, orientais), exceto como subordinadas e invisibilizadas. Não caberia mais o título de Padroeira do Brasil. Parte do entorno do candidato bolsonarista, composto por bispos e pastores evangélicos, defende essas ideias e ataca o que chamam de idolatria católica e africana. São iconoclastas. O próprio afirmou que um dos primeiros atos de governo seria decretar o senhorio de Jesus.
É nesse contexto que a relação voto-religião é discutida pelos pesquisadores. Existe um voto orientado por adesão religiosa, um voto evangélico? Em 2018, 2022 e 2026, nas eleições majoritárias (presidente), o mundo evangélico – com suas igrejas, denominações, pastores, bispos, fiéis – vota em candidatos da direita (mais de 50%).
Mas também é verdade que entre 25% e 35% desse eleitorado votam em candidatos da centro-esquerda. Há estudiosos/as que questionam a suposta essência religiosa do voto. Com argumentos válidos, mostram que, ao lado de temas morais (aborto, agenda anti-LGBTQIA+, liberdade), se justapõem e/ou se sobrepõem temas sociais, como a sensação de insegurança, custo de vida, ressentimento social e identificação com a utopia liberal. Não seria possível isolar o fio da religião do tecido social, pois ele se entrelaça com os outros.
De longe, enxergamos muitas cores morais-religiosas, mas, de perto, as cores se misturam em degradê. Não convém demonizar nem angelizar fenômenos sociopolíticos, menos ainda o mundo evangélico. A essa altura, estamos tratando direita, extrema-direita, bolsonarismo e família Bolsonaro como sinônimos. Não são, assim como nem todos os mais de 50 milhões de eleitores que votaram no representante do bolsonarismo, dentre eles evangélicos, são participantes do fascismo. De longe parecem ser uma cor-coisa só, mas de perto, percebem-se muitos tons.
A direita também abarca uma parcela democrática, que aprendeu com a esquerda a valorizar a Constituição, as instituições republicanas e as eleições. Há, entretanto, parcelas autoritárias em ambos os lados, left and right. Quanto ao bolsonarismo, é quase uma seita religiosa. Quanto à família, os livros investigativos e as reportagens desde os anos 1980 mostram o naipe do patriarca e filhos.
No meio da disputa, há um conflito entre duas faces de uma mesma plataforma socioeconômica e política, o liberalismo. Foi o que restou ao mundo depois do fracasso do socialismo/comunismo históricos. Inclusive de suas interessantes versões democráticas, como a Primavera de Praga (1968), na Tchecoslováquia, massacrada pela União Soviética ou a de Salvador Allende (Chile), deposta por um violento golpe militar em 1973 com ajuda do governo republicano dos EUA.
As duas facetas recebem nomes variados, como neoliberalismo, mas, grosso modo, uma é mais restritiva; a outra, mais temperada com social-democracia. Uma faceta é mais esperançosa, inclusiva, sorridente, generosa; a outra mais cara-amarrada, pessimista-fatalista. Nesta face, a economia é a ciência da escassez, definição pouco criativa.
Meritocracia e liberdade são cascas vazias onde se aninham práticas reacionárias. A doutrina liberal – liberdade político-econômica – faz o capitalismo funcionar. Mas, os grandes nomes do liberalismo, de Adam Smith a Stuart Mill, reconheciam que sem justiça e igualdade de condições (todos com o mesmo ponto de partida, em especial os que não possuem berço, herança ou privilégio), não há liberdade autêntica. O capital tem um defeito de origem: acumular para reinvestir, e daí acumular para reinvestir novamente, num caminho louco e sem fim.
Nesse movimento, derruba resistências e promove desequilíbrios profundos. As lutas trabalhistas, os movimentos sociais, o Estado Democrático e a política social-pública existem para tentar corrigir as distorções que o capital, em seu movimento, produz.
Não se pode deixar de notar que Karl Marx, lendo economistas liberais ingleses, enfatizou a contradição inerente entre o liberalismo e o capital. Este não deixa que a utopia liberal se realize para todos, muito menos para minorias. Para a faceta mais social do liberalismo, no entanto, a economia é a ciência da abundância. Quanto mais bem distribuída, mais cresce. O que se produz de riqueza no Brasil é uma imensidade, porém, ela se concentra e não irriga a sociedade como um todo.
Vivemos em um regime democrático. Os eleitores têm o direito de se identificar com essas duas propostas, mas também possuem o direito de conhecer melhor o que elas significam e o que têm a ver com voto e religião. Entra, assim, meu papel como professor e pesquisador. Para explicar um pouco mais as duas facetas, trago dois temas. A universalização da educação para que todas as pessoas possam ser livres e manifestar sua vocação e talentos faz parte da agenda liberal, mas somente pode ser garantida por investimento público.
Educação de qualidade custa caro. As pessoas mais pobres ficam com condições mais próximas às das mais ricas. O liberalismo conservador pretende dar um vale, umas merrecas aos mais pobres. Um curso privado de medicina custa mais de 7 mil reais. Nenhum governo pode dar isso para os filhos das classes trabalhadoras. O que se fornece, no máximo, é um ensino ruim, porque a lógica é a do ajuste fiscal sem concessão social. Muito menos políticas sociais para que minorias possam realizar a utopia liberal, como a população negro-parda-indígena.
O segundo tema caro aos liberais é o direito de se empregar e/ou de trabalhar livremente. Mas o poder do capital constrange essa liberdade. Não há livre negociação entre grandes e pequenos. Os grandes patrões desconfiam do pleno emprego porque o exército de reserva (trabalhadores desempregados ou subempregados) diminui. A mão de obra encarece, o lucro despenca. O pleno emprego dá liberdade ao trabalhador, ao menos o de carteira assinada, para buscar uma melhor colocação, que pague mais e o valorize.
O problema está nos setores médio-pequenos. Em meio a uma crise socioeconômica que se arrasta há décadas, os governos de centro-esquerda no Brasil fizeram do liberalismo novamente uma doutrina, tirando-o da condição de ideologia. O fizeram sempre em composição com forças de centro-direita. Nunca houve um puro governo de centro-esquerda. Entre 1994 e 2002, FHC governou com o PFL. Em 2022, Simone Tebet, dos setores liberais e do agronegócio, apoiou Lula e foi ministra. Geraldo Alckmin, do PSDB, virou vice-presidente.
Então, o que explica tantos evangélicos votando em um candidato que elogiou milícia, um dos grupos criminosos mais violentos dos últimos trinta anos? Como explicar que um político receba, de distintos segmentos, sentidos tão diferentes (liberal-conservador, cristão, amigo de milícia, golpista e autoritário)?
Primeiro, há um oceano de informações (verdadeiras e falsas) que chegam o tempo todo; há a vida corrida e de trabalho duro, sem pausa. Se somarmos a isso o ressentimento social, temos situações que não permitem transformar as informações em conhecimento. Para avançar, precisamos pensar uma teoria política das emoções sociais. A frustração social é um poderoso motor negativo. Ela se faz presente em alguns setores medianos que são evangélicos.
Desde a Constituição de 1988, as políticas sociais cidadãs, implantadas por governos mais à direita (PSDB) ou mais à esquerda, como do PT – sempre em aliança com setores liberais/de centro — trouxeram os pobres para um patamar mais confortável e justo. Entretanto, nenhum governo aprofundou políticas públicas para as classes medianas. Em termos de renda, elas se situam entre 5 e 12 salários-mínimos. Aí se localiza a maior parte do contingente evangélico. São milhões de pessoas: microempreendedores, proprietários de micro e pequenas empresas, profissionais que trabalham por conta própria. Trabalham duramente. São setores que simpatizam com o liberalismo.
Porém, o governo atual não foi enfático em políticas para esse setor, que deu um voto de protesto. Os segmentos médios, que possuem muitos encargos, ao sentirem a aproximação das classes sociais mais abaixo e ao olharem acima para as classes mais ricas, podem ser tomados por uma emoção social complexa: o ressentimento.
Ao somar-se ao antipetismo e ao antilulismo, duas expressões anti-igualitárias, que possuem em torno de 40% dos votos, o resultado foi a vitória do candidato F. Bolsonaro no primeiro turno. Muitos sabiam que ele era cheio de buracos, mas é competitivo. Enxergaram um descarrego emocional. Foi um voto melancólico-envergonhado. Não houve comemoração, rojões, festa. Quem saiu comemorando foi uma pequena parcela anti-igualitária e neofascista.
A ultracatólica deputada Júlia Zanatta saiu com chicote em punho, dando estocadas no asfalto e um pai colocou seu filho menor de idade em cima de um carro, com uma arma, que parecia verdadeira, comemorando com um grupo. A mãe entrou na Justiça para obter a guarda integral da criança. Justíssimo. Esse homem é um risco a si e ao filho. Essa pequena parcela comete violência estridente. Ganha mídia. Mas, é preciso distinguir.
O fascismo dos anos 1920-1945, derrotado na Segunda Guerra Mundial, propunha um Estado controlador, da economia ao comportamento. Uma contradição com o liberalismo. Mas, a face conservadora-liberal propõe cortes e austeridade, privatização do patrimônio público. É um afeto constipado e, por afinidade, atrai o neofascismo contemporâneo, um comportamento fóbico de rejeição à liberdade do outro e à igualdade de condições, um clamor pelo castigo e pela censura.
Assim, para explicar a relação entre religião e voto, é preciso não tratar todos os votantes em F. Bolsonaro como apoiadores do fascismo e não pensar por ideias erradas — como a de “pobre de direita”, um estigma preconceituoso. Ninguém gosta de ser tratado como um tapado. Não se consegue exercer a razão pública, como afirmou Immanuel Kant, partindo primeiro de acusações e rótulos. Xingar todos os eleitores da oposição de fascistas, sem diferenciar do grupelho bolsonarista, nem distingue os conceitos (teoria), nem ajuda (prática), pois acende o afeto da raiva.
Mahatma Gandhi e Martin Luther King, este pastor, aquele nascido na tradição hinduísta, mostram o poder da ação não violenta. E as Nossas Senhoras? São figuras polissêmicas e repousam sobre a ideia da Mãe de Deus. Como podem, numa mesma realidade, existir o um/único e o plural? Uma questão para a ciência da religião.
Sobre elas se projetam sentidos diversos. Nossa Senhora Aparecida traz a dor do povo sofrido, negro/pardo, indígena e demais. A devoção popular começa em 1717. Uma santa negra/parda, da cor do seu povo. Em 1917, ano da Revolução Russa, surgiu a branca Nossa Senhora de Fátima, em Portugal, clamando conversão e castigo, condenando o comunismo soviético. Ela é a preferida de grupos católicos reacionários, que estão em alta na Igreja Católica e cujo afeto é constipado-taciturno.
Uma mãe pode ser amorosa, gentil, solar, mas pode ser ríspida, dura, soturna, fria. Por isso, para refletir como a religião é polissêmica, trago a emoção de um vídeo gravado por Otoni de Paula, radialista, pastor e deputado não-reeleito. Virulento bolsonarista, ao som de um piano com o tema “Lula lá, brilha uma estrela”, ele afirmou como foi bom se arrepender, perder e, agora, ter “liberdade de dizer a verdade”. Com a voz embargada de lágrimas, afirmou: “Não sou Lula, sou Luz para Todos, Pé-de-Meia, SAMU […], estou ao lado do pobre, do preto, do quilombola, do indígena, da floresta, do lado dos que Jesus escolheu para andar”.
E quem foram eles na narrativa fundacional cristã? Pescadores, prostitutas, tecelões (segmento mediano…), necessitados, famintos. Se houve depredação de imagens de Nossa Senhora Aparecida e de Iemanjá, se há o Deus vingativo do Antigo Testamento, existe Jesus e a boa-nova do amor, o Sermão da Montanha. Esse afeto amoroso só combina com o liberalismo em chave generosa, que tenta promover direitos sociais para todos.
O afeto ressentido combina com a vingança, tesouraço e o moralismo recriminativo, pouco solucionador de problemas reais, embora crie pânico moral. Num regime desses, apenas aqueles que possuem poder, dinheiro ou nasceram em berço de ouro prevalecerão. As classes médias se empobrecerão, assim como as classes sociais baixas. Estas, ainda mais.
Com a eleição empatada, o candidato do afeto ressentido-vingativo prometeu aumentar o salário-mínimo e a aposentadoria acima da inflação. Não há contradição maior entre essas promessas e a ideologia que encarna, que propõe o corte de bilhões de reais. O símbolo dessa campanha é a tesoura. O grupelho bolsonarista deseja amealhar o Congresso Nacional e dobrar o Judiciário às suas vontades.
Avista-se um presidencialismo inflado, como o de Trump (EUA) ou o de Putin (Rússia). É grande o perigo de baderna institucional (mudar a Constituição) e penetração miliciana no coração do poder político. Torço pelo melhor. Mas, se vencer o pior, a batalha continuará ainda mais acirrada e com desfecho imprevisível.