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28/08/2026
Anderson Narciso
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Pato Fu reencontra os anos 1990 em Juiz de Fora e celebra uma história que ainda pulsa

Banda encerra o Festival Laços neste sábado (29), na Praça Tarcísio Delgado, com show gratuito baseado nos 30 anos de “Gol de Quem?”. Ao Folha JF, John Ulhoa fala sobre nostalgia, memória afetiva e a relação construída com o público
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Imagem: Divulgação/Pato Fu.

Há músicas que pertencem a um disco. Outras, depois de algum tempo, deixam de pertencer apenas a quem as escreveu. Passam a morar em viagens, namoros, despedidas, adolescências e lembranças que talvez nem seus autores pudessem imaginar quando entraram em um estúdio. O Pato Fu conhece bem essa sensação.

Trinta anos depois de Gol de Quem?, a banda mineira volta a Juiz de Fora neste sábado (29) para celebrar um álbum que ajudou a construir sua história, mas que também acabou entrando na história de muita gente que cresceu nos anos 1990.

O encontro será às 18h30, na Praça Tarcísio Delgado, encerrando o Festival Laços, evento gratuito que celebra os 120 anos da Drogaria Araújo.

E talvez exista algo especialmente bonito nesse retorno. Em novembro do ano passado, o Pato Fu esteve em Juiz de Fora apresentando Música de Brinquedo, cercado por instrumentos inusitados e por um espetáculo pensado para crianças e adultos. Menos de um ano depois, a banda retorna olhando para outra geração: aquela que ouviu suas músicas três décadas atrás e agora poderá reencontrá-las em uma praça no Centro da cidade.

Ao Folha JF, John Ulhoa antecipou que os dois encontros não poderiam ser mais diferentes.

“São shows completamente diferentes. Repertório, instrumentos, formação da banda, cenário, tudo.”

Pato Fu não quer viver apenas de nostalgia

O show deste sábado é baseado na turnê que comemora os 30 anos de Gol de Quem?, mas não será simplesmente uma reprodução do álbum.

Segundo John, músicas de diferentes períodos da carreira foram incorporadas ao repertório. A ideia foi encontrar um equilíbrio capaz de conversar tanto com quem acompanha o Pato Fu há décadas quanto com quem conhece principalmente seus maiores sucessos.

E os fãs mais antigos podem esperar algumas surpresas.

“Acho que conseguimos conciliar um repertório que deixa feliz nosso fã mais antigo, tocando uns ‘lado B’ inesperados. E estas são canções que deixam intrigados aqueles que vão mais para curtir os sucessos, que também estão presentes.”

Essa mistura ajuda a explicar o que o Pato Fu parece buscar ao revisitar a própria história. Existe nostalgia, claro. Seria impossível comemorar três décadas de um disco sem ela. Mas a banda não quer subir ao palco apenas para reproduzir uma fotografia dos anos 1990.

John resume essa relação de uma maneira simples: “as duas camadas correm lado a lado”.

“O lado nostálgico é evidente, mas quem vai ao show percebe claramente que a gente continua com o pé no acelerador.”

Para ele, as músicas antigas continuam sendo tocadas com vontade porque ainda despertam interesse artístico dentro da própria banda. Alguns dos arranjos, inclusive, foram pensados há três décadas imaginando como funcionariam ao vivo. O tempo passou e eles continuam funcionando.

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Imagem: Divulgação.

“Sobre o Tempo” ganhou outro tamanho

Entre todas essas músicas existe uma que talvez simbolize melhor a relação entre o Pato Fu e quem cresceu ouvindo a banda. Sobre o Tempo nunca deixou o repertório do grupo.

Quando foi composta, ninguém poderia prever o espaço que ocuparia na vida das pessoas. Para John, esse é um dos aspectos mais fascinantes de fazer música.

“Quando você está compondo, você não sabe como uma canção vai se comportar no tempo-espaço, na cabeça-coração das pessoas.”

Três décadas depois, ele percebe que a música parece ganhar novos significados conforme o próprio público envelhece.

“‘Sobre o Tempo’ nunca saiu de nosso repertório e parece ganhar um significado cada vez maior com o passar dos anos. É mesmo um sonho de consumo para qualquer artista perceber que sua criação passou a fazer parte da vida de tanta gente.”

Por isso, John enxerga a atual turnê também como uma “celebração dessa longa história de amizade entre a banda e seu público”.

Quando até uma música irônica faz alguém chorar

Talvez a dimensão dessa memória afetiva apareça de maneira ainda mais curiosa em músicas que originalmente nem pretendiam emocionar. John cita Vida Imbecil como exemplo.

“É incrível ver as pessoas se emocionando com canções que eram mais para ser engraçadas ou irônicas.”

Hoje, há quem chore durante a execução da música. Depois dos shows, fãs chegam até os integrantes dizendo que imaginavam que nunca mais conseguiriam ouvi-la ao vivo. Para John, essas reações mostram que permanecer relevante depois de tantos anos não depende somente de produzir algo novo. Existe também outra forma de permanência.

“É uma sensação muito legal, de você se manter relevante não somente pelo senso de novidade, mas pela permanência na memória afetiva das pessoas.”

E talvez esteja aí a melhor definição para o show que Juiz de Fora recebe neste sábado. Não se trata apenas de voltar a 1995, mas também descobrir o que aquelas músicas se tornaram depois de acompanharem seus ouvintes por 30 anos.

Pato Fu Juiz de Fora
Imagem: Divulgação/Pato Fu.

Festival Laços pode apresentar Pato Fu a uma nova geração

Curiosamente, enquanto alguns estarão na Praça Tarcísio Delgado para reencontrar músicas que conhecem há décadas, outros poderão descobrir o Pato Fu pela primeira vez.

O Festival Laços reúne atrações de diferentes linguagens e gerações e tem entrada gratuita. Para John, festivais assim permitem que até uma banda com mais de três décadas de trajetória continue chegando a novos ouvintes.

“Gosto da ideia de que, se alguém descobre o Pato Fu agora e resolve dar uma fuçada na discografia, vai ter muito, mas muito assunto mesmo.”

Ele também destaca a oportunidade de dividir a programação com novos artistas e, principalmente, com atrações da cena local.

“É ótimo conviver com novos artistas, melhor ainda quando se dá espaço para atrações da cena local, ainda mais em espaço público e evento gratuito. Melhor fórmula!”

Antes do Pato Fu, o Festival Laços começa às 14h com o Trupicada. Às 15h, será a vez do Duo Arcovento. Às 16h, o Samba de Colher recebe Camila Brasil, e, às 18h, a intervenção circense Lá na Lona ocupa diferentes pontos da praça.

Às 18h30, o Pato Fu encerra a programação.

Para quem cresceu nos anos 1990, talvez seja difícil assistir a esse show sem procurar alguma lembrança própria no meio das músicas. Para quem nasceu depois, pode ser a oportunidade de entender por que elas permaneceram.

E o próprio Pato Fu parece disposto a fazer essa viagem sem transformar o passado em peça de museu.

Trinta anos depois, Gol de Quem? continua sendo celebrado não apenas porque envelheceu bem, mas porque suas músicas envelheceram junto com quem as ouviu. E, neste sábado, algumas dessas histórias voltam a se encontrar em Juiz de Fora.

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