Juiz de Fora voltou a respirar diversidade em agosto de 2025. Depois de dez anos sem ser realizada, a Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ tomou novamente a Avenida Barão do Rio Branco no sábado, 23, reunindo cerca de 10 mil pessoas em um cortejo que coloriu o Centro, do Largo do Riachuelo até o Parque Halfeld. O retorno do evento, que integra a programação do Rainbow Fest Brasil, não representou apenas uma celebração simbólica: consolidou-se como um marco para a cidade, tanto pelo impacto social quanto econômico, ao injetar aproximadamente R$ 5,5 milhões na economia local.
Esse resultado confirmou o que muitos já sabiam: quando Juiz de Fora acolhe sua diversidade, ela cresce. O turismo de eventos, em especial os voltados para o público LGBTQIAPN+, tem sido uma das maiores forças de desenvolvimento em todo o país, e a cidade mostra que pode ocupar novamente posição de destaque nesse segmento.
Uma tradição que fez história
A relação de Juiz de Fora com a diversidade é antiga. Desde 1976, a cidade abriga o Miss Brasil Gay, um dos maiores concursos de transformismo do país. Criado por Francisco Motta, inicialmente como uma brincadeira entre amigos para arrecadar fundos para a escola de samba Juventude Imperial, o concurso rapidamente se transformou em um espetáculo de proporções nacionais. Em mais de quatro décadas, passou a mobilizar representantes dos 26 estados e do Distrito Federal, ganhando o reconhecimento de Patrimônio Imaterial do município.
O Miss Brasil Gay ajudou a projetar Juiz de Fora no mapa cultural e turístico do Brasil. Além do impacto econômico — com hotéis, bares e restaurantes lotados —, consolidou a imagem da cidade como acolhedora e plural. Para compreender sua relevância, basta lembrar que em meados dos anos 1990, a imprensa local já o classificava como “o maior evento turístico da cidade”. Hoje, mais de 40 anos depois, a tradição se mantém, atraindo candidatos, celebridades e turistas de todo o país.
Em 1998, esse movimento se ampliou com o surgimento do Rainbow Fest, que trouxe para a cidade uma semana de atividades voltadas à diversidade: palestras, cinema, teatro, exposições e shows. Foi nesse contexto que a Parada do Orgulho começou a ser realizada em Juiz de Fora, entre 2003 e 2015, chegando a reunir 120 mil pessoas em 2006. Essa agenda transformou agosto em um dos meses mais movimentados para a rede hoteleira e para o comércio local, consolidando a cidade como destino nacional para o turismo LGBTQIAPN+.
Dez anos de hiato
A última edição da Parada havia ocorrido em 2015. A ausência por uma década deixou um vazio tanto na agenda cultural quanto no setor de turismo. A cidade perdeu não apenas um de seus principais símbolos de acolhimento, mas também parte de seu potencial de desenvolvimento econômico.
Esse hiato coincidiu com um período de transformações no Brasil. A comunidade LGBTQIAPN+ avançou em direitos, como o reconhecimento da homofobia como crime, mas também enfrentou retrocessos e crescentes desafios sociais. Nesse contexto, a retomada da Parada em 2025 assumiu um significado ainda maior: mais do que um evento, foi um reencontro da cidade consigo mesma.

Um sábado inesquecível
A concentração começou ao meio-dia, no Largo do Riachuelo, e logo dois trios elétricos anunciavam o clima de celebração. Por volta das 14h, a multidão seguiu pela Barão do Rio Branco em direção ao Parque Halfeld, em um percurso de três horas embalado por música, performances e abraços.
Um imprevisto acabou chamando a atenção: um enxame de abelhas surgiu próximo à CESAMA, obrigando a Polícia Militar e a Polícia Ambiental a desviar o trajeto. O que poderia ser problema logo virou motivo de piada entre os participantes, reforçando a leveza do evento.
Mais do que festa, a Parada foi um gesto de resistência e de amor. O tema escolhido, “Envelhecer LGBT+: Memória, Resistência e Futuro”, homenageou o ativista Marco Trajano, reforçando a importância de valorizar gerações que abriram caminho para as conquistas atuais. A edição mostrou que a celebração da diversidade continua sendo essencial para Juiz de Fora — e que a cidade está pronta para retomar seu lugar como referência nacional.
Impacto econômico e social
A Parada de 2025 movimentou Juiz de Fora. A rede hoteleira operou praticamente em capacidade total, restaurantes e bares tiveram crescimento expressivo no faturamento, e centenas de empregos formais e informais foram gerados. O impacto consolidado foi de R$ 5,5 milhões injetados na economia local em um único fim de semana.
O resultado evidencia o quanto o turismo de diversidade pode ser estratégico para o desenvolvimento da cidade. Em um momento em que municípios de todo o país buscam atrair visitantes, Juiz de Fora mostra que sua vocação está no acolhimento.
O público LGBTQIAPN+ representa hoje uma das fatias mais relevantes para o turismo nacional e internacional, e se sente atraído por destinos onde há respeito e visibilidade. Ao retomar a Parada e fortalecer o Miss Brasil Gay, Juiz de Fora reafirma sua capacidade de competir nesse cenário.
Um olhar de dentro
Como repórter do Folha JF, caminhei junto ao cortejo registrando cada detalhe. Mas desta vez não era apenas o jornalista que estava ali. Era também o cidadão, o homem gay que, dez anos antes, em 2015, ainda não tinha liberdade para estar de forma plena na Parada. Voltar em 2025, agora vivendo minha identidade sem medo, foi também fechar um ciclo pessoal.
Entre bandeiras tremulando, sorrisos e abraços, percebi que Juiz de Fora não estava apenas retomando um evento. Estava oferecendo a todos nós um espaço de pertencimento. E esse pertencimento é, em si, um motor de desenvolvimento. Uma cidade cresce quando seus cidadãos podem ser quem são sem medo. Uma cidade se fortalece quando abre suas ruas para celebrar a diversidade de sua gente.
O Miss Brasil Gay e o futuro
No mesmo mês da Parada, Juiz de Fora recebeu a 41ª edição do Miss Brasil Gay. O concurso reafirmou sua importância cultural e econômica, atraindo turistas e consolidando a cidade como destino. Em entrevista exclusiva ao Folha JF, o organizador Michel Brucce antecipou os planos para 2026:
“No próximo ano estamos trabalhando em um marco histórico de 50 anos de Miss Brasil Gay. Nossas intenções nas atividades de aniversário de 50 anos vão muito além do concurso: vai ser uma celebração para toda a cidade. Vamos viajar o Brasil neste ano divulgando Juiz de Fora em todos os 27 concursos estaduais. Com a volta da Parada e todas as atividades da semana LGBT, Juiz de Fora tem a possibilidade de retornar como um dos pontos principais do turismo LGBTQIA do país.”
A fala mostra que o futuro é de expansão. A celebração dos 50 anos do Miss Brasil Gay promete não apenas resgatar a história, mas projetar Juiz de Fora nacionalmente, com uma agenda que vai além do concurso e pretende envolver toda a cidade.
Amor em pluralidade
O calendário de eventos de Juiz de Fora é, por natureza, diverso. Aqui cabem todas as celebrações: da Marcha para Jesus, que mobiliza milhares de fiéis, ao Rainbow Fest, passando por festivais de música, teatro e gastronomia. Essa pluralidade é uma das maiores riquezas da cidade.
O sucesso da Parada de 2025 mostra que Juiz de Fora tem condições de transformar sua diversidade em estratégia de desenvolvimento. Amar Juiz de Fora é reconhecer sua vocação de acolhimento, é investir em turismo, cultura e economia criativa, é apostar no futuro construído a partir da pluralidade de seus cidadãos.
O retorno da Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ após dez anos não foi apenas um acontecimento festivo. Foi um marco que reafirmou Juiz de Fora como cidade acolhedora, plural e economicamente promissora. Com impacto de R$ 5,5 milhões, lotação hoteleira e projeção nacional, a cidade mostrou que quando abraça sua diversidade, ela se fortalece em todas as dimensões.
Mais do que números, a Parada trouxe de volta um sentimento coletivo: o de pertencimento. Um sentimento que se traduz em orgulho de ser juiz-forano. Ao lado do Miss Brasil Gay, que em 2026 completará 50 anos, a Parada consolida o papel da cidade como polo do turismo de diversidade.
Amar Juiz de Fora é valorizar suas tradições, reconhecer sua pluralidade e acreditar no seu potencial de desenvolvimento. Em 2025, vimos esse amor por Juiz de Fora ocupar as ruas. E ficou claro: quando amamos Juiz de Fora, ela cresce.