Imagine uma pessoa comum em um ponto de ônibus no centro da cidade de Juiz
de Fora. Aproxima-se a hora do almoço, ele retira o celular do bolso da calça, liga para casa e avisa que está chegando para almoçar. Ao lado dele, nesse mesmo ponto de ônibus, um jovem diverte-se com um jogo eletrônico online, cujo site da internet está situado no Japão, enquanto espera a sua condução.
O que há de comum entre eles além de estarem juntos no mesmo ponto de ônibus
da cidade? A resposta é que estão usando meios de comunicação à distância para
diferentes atividades em diferentes pontos do planeta. Mas, há algo mais nessa cena além do fato de estarem ali fazendo uso da mesma tecnologia de comunicação.
Na verdade, eles estão interagindo socialmente numa dimensão que a humanidade
jamais experimentou. Trata-se da sociedade mundial resultante da expansão das relações sociais que extrapolaram o limite territorial dos Estados definido pelas fronteiras nacionais.
A trajetória humana no planeta é marcada pela profunda transformação na forma
de se organizar e interagir com o espaço e com o poder político. Desde que abandonou o nomadismo e se fixou à terra, o ser humano vem desenvolvendo estruturas comunitárias através da construção de conjuntos de valores e regras ligados à propriedade da terra e à produção e consumo de bens e serviços.
O surgimento do Estado Moderno no século XVIII transformou o antigo súdito
em cidadão, portador de direitos civis, políticos e sociais garantidos por uma ordem
jurídica delimitada pelas fronteiras nacionais.
Todavia, as dinâmicas da globalização econômica iniciadas na década de 1990
promoveram uma rápida integração entre os povos que passaram a integrar redes
econômicas e fluxos de informação, consumo e lazer em escala planetária.
Estamos falando da sociedade mundial e do cidadão global da sociedade
mundial. Portanto, os personagens citados acima não são apenas cidadãos de Juiz de
Fora, mas parte integrante de um planeta inteiramente conectado e em constante interação de interesses e valores individuais e coletivos.
O conceito de sociedade mundial amplia a visão tradicional do Estado ao integrar
indivíduos, empresas e redes globais ao fluxo diário de informações e riquezas. Em
resumo, ela é fundamentada em valores humanos universais, metas comuns e
comunicação global.
O cidadão glocal – de Juiz de Fora para o mundo e vice-versa
A sociedade mundial demonstra como decisões e normas internacionais atravessam fronteiras e moldam o cotidiano de Juiz de Fora, conectando a população local
a um sistema planetário. Essa peculiaridade de pertencimento simultâneo a duas esferas de convivência social foi sistematizada ao longo dos anos a partir do conceito de glocalidade.
As realidades dinâmicas da vida internacional e da realidade local se interpenetram, trazendo luz a novos questionamentos antes considerados como sendo de baixo ou nenhum interesse à realidade municipal como as questões relacionadas a direitos humanos, integração econômica, meio ambiente e migrações, por exemplo.
Ao tomar consciência da sua glocalidade, o cidadão juiz-forano substitui a análise
provinciana dos fatos, inserindo-os em um contexto mais amplo. Juiz de Fora não é uma ilha e o calçadão da rua Halfeld não é a esquina do mundo.
A cidade é parte vibrante de um ecossistema mundial em que o cidadão deixa de
ser um espectador passivo da realidade internacional para assumir uma postura ativa na tomada de decisões que permitam, por exemplo, cuidar melhor do meio ambiente, atrair investimentos e infraestrutura, prevenir ou reparar catástrofes e reduzir a pobreza mundial a partir do cuidado com seus concidadãos locais.
A história de Juiz de Fora sempre esteve entrelaçada ao cenário mundial, foi assim
que adotamos o apelido que mais nos orgulha, o de “Manchester mineira” e, como visto, não é preciso sair da cidade para estar no mundo — o mundo já passa por aqui – cabendo decidir se será mero ponto de passagem ou um polo gerador de valor e inteligência.
Algumas pessoas em um ponto de ônibus em Juiz de Fora promovem, sem saber,
uma conexão da cidade com o mundo.


