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02/08/2026
Valéria Costemalle
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El Niño, Juiz de Fora desprotegida e o Sudeste à beira da crise

Enquanto El Niño avança sobre o Sudeste, a vulnerabilidade de uma região inteira segue negligenciada por falta de estruturas de governança climática que funcionem
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Divulgação / Alokpaaki

A cidade de Juiz de Fora sobreviveu à tragédia de fevereiro de 2026 porque recebeu ajuda federal após o desastre. Mas essa não é a lição que deveria ter aprendido. O que deveria estar acontecendo, há décadas, é planejamento. Enquanto El Niño avança sobre o Sudeste, a vulnerabilidade de uma região inteira segue negligenciada por falta de estruturas de governança climática que funcionem.

O desastre de fevereiro: números que falam

Entre 23 e 24 de fevereiro de 2026, Juiz de Fora registrou o maior volume de chuva em 65 anos de história meteorológica. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a cidade acumulou 752,4 mm de chuva em um mês: mais de quatro vezes a média climatológica de 170 mm para fevereiro.

Os números da tragédia são expressivos: 66 mortes confirmadas pela Defesa Civil, 8.854 pessoas desabrigadas ou desalojadas, centenas de casas destruídas. Bairros inteiros foram cortados. A cidade que abriga 540 mil habitantes despertou para o risco climático extremo que havia sido alertado repetidamente por cientistas e ambientalistas, mas nunca foi adequadamente enfrentado por planejamento governamental.

O comitê que nunca saiu do papel: dois anos de cobrança

Desde a promulgação da Lei Municipal nº 14.556 em 2023, que instituiu o estado de emergência climática em Juiz de Fora, cientistas, ambientalistas e integrantes do Fórum Juiz-Forano de Meio Ambiente, Emergência Climática e Território cobram a criação de um Comitê Municipal de Mudanças Climáticas.

A lei foi homologada pela Câmara Municipal e estabelecia a obrigatoriedade de criar o comitê intersetorial e elaborar o Plano Municipal de Emergências Climáticas, com metas de redução de risco e adaptação. Mas após a homologação, o Executivo não implementou as estruturas exigidas. Em janeiro de 2025, ambientalistas renovaram a cobrança durante o segundo mandato da prefeita Margarida Salomão. A resposta foi silêncio administrativo. Um ano depois, em fevereiro de 2026, a natureza cobrou a conta.

Essa não é uma negligência isolada de Juiz de Fora. É uma história de décadas: a câmara municipal, segundo pesquisa do Núcleo de Estudos sobre Política Local (Nepol) da UFJF, registrou entre 2000 e 2026 um total de 8.400 proposições legislativas relacionadas a chuvas, enchentes, deslizamentos, contenção de encostas e áreas de risco. Esse volume expressivo reflete reação, não planejamento. O legislativo trabalhou a vida toda com requerimentos emergenciais ao Executivo em vez de construir uma estratégia integrada de proteção.

Por que um Comitê Municipal de Mudanças Climáticas é urgente

Um Comitê Municipal de Mudanças Climáticas é uma estrutura de governança que integra poder público, sociedade civil, academia e setor privado em torno de um objetivo comum: reduzir vulnerabilidades climáticas. Funciona como o lugar onde decisões sobre adaptação e mitigação são tomadas de forma coordenada, multissetorial e transparente.

Seus componentes essenciais incluem:

  • Diagnóstico de vulnerabilidade: mapeamento de áreas de risco, populações expostas, infraestrutura crítica e setores econômicos vulneráveis aos impactos climáticos.
  • Plano de Adaptação e Mitigação: documento que define ações concretas, orçamento, responsabilidades e prazos para reduzir emissões (mitigação) e proteger o território (adaptação).
  • Integração com Defesa Civil: conexão entre prevenção climática de longo prazo e proteção de emergência de curto prazo, evitando silos administrativos.
  • Orçamento climático dedicado: alocação específica de recursos a cada ano, não apenas em emergências, garantindo continuidade de ações.
  • Monitoramento e avaliação: acompanhamento contínuo de indicadores climáticos, avaliação de ações implementadas e ajustes quando necessário.
  • Participação pública: canais abertos para que cidadãos, empresas e organizações entendam riscos, acompanhem decisões e contribuam com propostas.

Sem essas estruturas, cidades como Juiz de Fora seguem organizadas para crise, não para prevenção. O comitê transforma essa dinâmica.

O paradoxo de Minas Gerais: tem plano, mas corta verbas

Minas Gerais é um dos apenas quatro estados brasileiros com Plano de Ação Climática completo, integrando mitigação e adaptação. Os outros três são Paraná, Pernambuco e Piauí. Mas ter plano no papel não significa ter política na prática.

Segundo dados do Portal da Transparência de Minas Gerais, o governo estadual reduziu drasticamente o orçamento para prevenção de impactos climáticos. Em 2023, destinou R$ 134,8 milhões ao programa de gestão de riscos de chuvas. Em 2025, esse valor caiu para apenas R$ 5,8 milhões: uma redução de 96%. Desses R$ 5,8 milhões, 97% foram gastos em manutenção de estradas, não em proteção de vidas.

O resultado é paradoxal: Minas Gerais despende recursos em resposta aos desastres muito mais do que em sua prevenção. Auditoria do Tribunal de Contas do Estado mostrou que, entre 2012 e 2025, o estado gastou R$ 462 milhões em prevenção, mas quase o dobro: R$ 823 milhões: em reparação e reconstrução. Entre 2020 e 2023, apenas os desastres provocados por chuvas causaram R$ 4,39 bilhões em perdas econômicas.

A mensagem é clara: investir em planejamento de proteção custa infinitamente menos que reconstruir cidades após desastres. Minas tem o plano, mas escolheu não financiá-lo adequadamente.

El Niño chega: Juiz de Fora, mais vulnerável que nunca

El Niño: o aquecimento das águas do Oceano Pacífico que altera padrões de precipitação globalmente: traz para o Sudeste do Brasil um fenômeno complexo. O padrão geral é de estiagens prolongadas, redução de precipitação estimada em 15% a 25% e ondas de calor mais frequentes. Mas pesquisas técnicas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indicam que, dependendo da intensidade do fenômeno e da atuação de outros sistemas atmosféricos, podem ocorrer episódios de chuva intensa em partes do Sudeste, incluindo áreas de Minas Gerais e centro-sul do Rio de Janeiro.

Para uma cidade como Juiz de Fora, que tem relevo acidentado, solo encharcado pelas tragédias recentes, infraestrutura de drenagem colapsada e população deslocada, esse cenário é crítico por múltiplas razões. A predominância de seca ameaça o próprio abastecimento de água potável para a população urbana. Simultaneamente, a seca reduz a produção hidroelétrica regional, pressiona os preços de energia, diminui a produção agrícola do Sudeste e causa inflação de alimentos estimada entre 8% a 12% nos próximos meses. E quando episódios de chuva intensa ocorrem em solo saturado, sem sistemas de drenagem adequados, o resultado é desastroso.

Na Amazônia, seca extrema paralisa a navegação e compromete comunidades ribeirinhas. No Pantanal, incêndios já explodem em volume 40% acima do acumulado de 2025. E na região Sudeste, os reservatórios de hidrelétricas já operam abaixo da média histórica.

Juiz de Fora é um ponto no mapa, mas é um ponto que conhece o sabor recente da vulnerabilidade. Uma cidade sem comitê municipal de mudanças climáticas estruturado, sem plano de emergências climáticas integrado, com infraestrutura ainda cicatrizando, não está equipada para enfrentar El Niño.

Governo federal libera verba e o tempo urge

Esta semana, o governo federal liberou recursos adicionais para enfrentar os efeitos de El Niño, reforçando investimentos em contenção de riscos climáticos. A resposta reconhece a urgência: El Niño é previsível, seus impactos são conhecidos e a proteção é tecnicamente viável. Mas verba de emergência não substitui planejamento.

Juiz de Fora sobreviveu à tragédia de fevereiro porque recebeu ajuda federal após o desastre: não porque estivesse preparada. A lição já está escrita pela história: cidades que possuem planos integrados de mudanças climáticas, orçamento dedicado para clima e comitês funcionando transformam desastres esperados em riscos administrados.

O Sudeste inteiro está em risco. E o tempo de planejar era ontem. O tempo de começar é agora.

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