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07/08/2026
Anderson Narciso
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Criador de Fúria, Igor Verde fala ao Folha JF sobre série número 1 da Netflix

Em entrevista exclusiva, Igor Verde fala sobre o sucesso da produção brasileira, explica por que o MMA é apenas o pano de fundo da trama e fala da origem na Zona da Mata.
Fúria criador Igor Verde
Imagem: Divulgação.

Em apenas seis episódios, Fúria se transformou em um dos maiores sucessos brasileiros da Netflix em 2026. A produção, co-criada por Igor Verde, acompanha Marcelo (Vinícius Neri), um jovem encontrado à beira da morte por um treinador de MMA. Sem qualquer lembrança do próprio passado, ele ganha um novo nome, uma nova chance e tenta reconstruir a própria identidade enquanto descobre que está ligado a uma perigosa rede de crimes e segredos.

Com cenas intensas de luta e um elenco que reúne MC Cabelinho, Fábio Lago, Alice Carvalho, Eduardo Moscovis, Cláudia Raia e Bianca Comparato, a série rapidamente conquistou o primeiro lugar entre as produções mais assistidas da plataforma.

Mas, para Igor Verde, o verdadeiro combate nunca aconteceu dentro do octógono.

“As lutas são os conflitos se desenrolando fisicamente. O que faz nós, humanos, nos conectarmos com histórias são os dramas dessas histórias.”

Em entrevista exclusiva ao Folha JF, Igor falou sobre o sucesso da produção, explicou os temas que realmente movem Fúria e revelou que sonha em transformar uma história de Minas Gerais em filme.

Furia nova serie da Netflix brasileira
Elenco de Fúria, nova série da Netflix. Imagem: Divulgação.

Igor Verde falou sobre sucesso de Fúria ao Folha JF

Quem começa a assistir Fúria imaginando encontrar apenas uma série sobre MMA rapidamente percebe que o esporte funciona como pano de fundo para discutir questões humanas. Para Igor Verde, esse sempre foi o objetivo.

A ideia nasceu da vontade de unir dois temas que o acompanham há anos: o universo das artes marciais e a busca pela identidade. Segundo ele, Marcelo, protagonista da trama, precisava começar a história completamente vazio.

“É um homem que é uma página em branco. Você não sabe seus valores, seu passado. Não há julgamento. Só um homem vazio a ser preenchido.”

Ao longo dos seis episódios, o personagem tenta reconstruir quem é enquanto descobre que seu passado esconde crimes, traumas e escolhas difíceis. Para o roteirista, a memória é justamente o coração da narrativa.

Pra falar dessa luta contra a fera interior nada melhor do que um homem, lutador, que é uma página em branco. Você não sabe seus valores, seu passado, não há julgamento, não há o que gostar nem o que não gostar nele. Só um homem vazio a ser preenchido. E a medida que se desenrola a história de Marcelo a sua cruzada sobre a memória se torna um elemento central pra gente compreender como muito dessa luta passa pela escolha entre lembrar ou esquecer coisas. Na verdade, a memória é base para o amor tanto quanto para o ressentimento. Foi isso que me fez notar o coração dessa história.

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Igor Verde nos bastidores de Fúria. Igor Verde/Acervo.

O sucesso da série não foi uma surpresa para o criador

Embora a Netflix tenha demonstrado cautela sobre o potencial da produção antes do lançamento, Igor conta que a equipe acreditava desde o início que tinha uma história forte nas mãos.

“Nós estávamos com boas expectativas. Mesmo quando a Netflix titubeou sobre os números que a série poderia fazer, nós ainda acreditávamos que tínhamos uma boa história.”

A resposta do público acabou confirmando essa confiança. Em poucos dias, Fúria alcançou o topo do ranking da plataforma e colocou novamente uma produção brasileira em evidência internacional. Apesar da quantidade de cenas de ação, Igor acredita que o verdadeiro motivo para tanta gente maratonar a série está longe dos golpes dentro do octógono.

“Os conflitos humanos são o que fazem as pessoas continuarem assistindo.”

Um novo momento para o audiovisual brasileiro

Nascido e criado no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, Igor Verde construiu uma carreira marcada por histórias que discutem identidade, representatividade e pertencimento. Passou por Globo, Disney e Netflix até chegar a Fúria, que considera um retrato muito brasileiro.

Segundo ele, ainda existe um enorme espaço para contar histórias regionais.

“Qualquer pessoa neste país está, de alguma forma, numa cruzada pela sua identidade enquanto brasileiro.”

Para o roteirista, essa busca pela identidade nacional ainda precisa ser mais explorada pelas novas gerações de criadores.

Quando perguntado sobre a principal mensagem da série, a resposta veio em apenas uma frase.

“Você é o que você escolhe fazer agora, neste exato instante.”

Igor Verde nos bastidores de Fúria
Imagem: Igor Verde/Acervo.

Minas Gerais pode virar cenário de um próximo filme

Foi justamente durante a conversa com o Folha JF que surgiu uma das revelações mais interessantes da entrevista.

Apesar de ser carioca, Igor mantém uma ligação profunda com Minas Gerais. Sua mãe nasceu em Visconde do Rio Branco, na Zona da Mata, e a história da família ainda inspira um projeto muito pessoal.

“Minha mãe cresceu em um regime de trabalho análogo à escravidão. Meus avós viviam numa fazenda onde trabalhavam nessas condições. Eles conseguiram sair dali, construíram uma casa em Visconde do Rio Branco e reconstruíram a vida. Só por essa capacidade de superação eu estou aqui hoje.”

O cineasta revelou que já escreve um longa inspirado nessa trajetória.

“Tenho vontade de ficcionalizar esse pedaço da história dos meus antepassados em Minas. Já existe um projeto de longa, mas ainda não encontramos financiamento. Espero conseguir contar essa história em breve porque ela é muito importante para mim.”

Juiz de Fora também chamou a atenção do criador

Durante a entrevista, Igor foi além da história da própria família e surpreendeu ao demonstrar conhecimento sobre a região. Segundo ele, Minas reúne um patrimônio cultural enorme que ainda aparece pouco nas telas.

Entre os exemplos citados estão a lenda do Catuti, personagem do folclore mineiro, e a história do Movimento Negro Unificado de Juiz de Fora.

“Juiz de Fora formou um dos polos de maior destaque nas discussões raciais e na luta em favor do povo trabalhador. São histórias que merecem ser contadas.”

A declaração reforça uma percepção que cresce entre produtores brasileiros: o streaming abriu espaço para narrativas cada vez mais regionais, capazes de dialogar com o mundo justamente por serem profundamente brasileiras.

Enquanto uma eventual segunda temporada ainda depende da decisão da Netflix, Igor prefere manter os pés no chão.

“Vamos esperar a Netflix. Eles estavam bem reticentes sobre a aceitação da série, mas essa primeira semana positiva talvez tenha colocado um pouquinho mais de segurança sobre a potência dessa história.”

Se depender do entusiasmo do público e da convicção do criador, Fúria parece ter encontrado exatamente o que buscava desde o início: uma história brasileira capaz de conquistar o mundo sem abrir mão das próprias raízes.

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