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06/09/2026
Anderson Narciso
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É altar religioso ou palanque eleitoral?1 

“Desde 2018, alguns ex-alunos e pessoas conhecidas disseram ter deixado suas igrejas porque o altar ou o púlpito virou máquina eleitoral para eleger ou derrotar políticos.”
altar religioso ou palanque eleitoral_
Imagem: Folha JF.

Na última coluna que escrevi, trouxe à luz o aforismo 125, contido no livro A Gaia Ciência, escrito pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Por meio do homem louco, um dos muitos personagens filosófico-literários criativos e potentes, afirmou-se: “Deus morreu, e nós somos seus assassinos”.

É uma provocação filosófica instigante. Para quem deseja aprofundar-se nessas pradarias sem correr o risco de fazer interpretações ruins e cair num buraco do qual terá dificuldade para sair, recomendo textos e livros de uma das maiores especialistas brasileiras no filósofo alemão, Scarlett Marton. 

Para refletir sobre um tema controverso — as igrejas e sua atuação político-eleitoral —, tomo a parte final desse aforismo. Escreve Nietzsche: “Conta-se que o homem louco adentrou […] várias igrejas e entoou aí o seu Requiem aeternam deo. Acompanhado até a porta e questionado energicamente, ele retrucava sem parar apenas o seguinte: ‘O que são ainda afinal estas igrejas, se não túmulos e mausoléus de Deus?’” Palavras fortes, como um martelo de aço. Num cemitério e num túmulo, há lamento, saudade, melancolia e, por fim, silêncio. Mas, em algumas igrejas, mais notadamente nas poderosas e ricas, representadas por muitos políticos eleitos, é a laicidade estatal que jaz morta. 

A nossa laicidade, diferente da francesa, foi sendo construída entre, de um lado, rupturas com as influências ilegítimas da Igreja sobre o Estado, a vida civil, a legislação, a saúde e a educação públicas e, de outro, colaborações legítimas em pautas convergentes, como as sociais. O Estado moderno não adota nenhuma ideologia religiosa como sua doutrina oficial e, por isso mesmo, consegue estabelecer o reconhecimento institucional do pluralismo religioso, das minorias religiosas (como as religiões afro-brasileiras) e o respeito ao direito de culto e de consciência. Do ponto de vista formal, a separação entre poder eclesiástico e poder estatal e civil e o direito de ter sua fé respeitada estão assegurados. Mas, do ponto de vista da vida prática, ainda há grandes desafios, como a intolerância religiosa e a perda da laicidade. 

O combate pela separação entre poder eclesiástico e poder civil, público e estatal foi feito por muita gente no mundo e no Brasil: militares positivistas, escritores, artistas, intelectuais, gente simples, homens e mulheres. Inclusive, ao menos ao final do século XIX e começo do XX, por kardecistas, maçons, incipientes igrejas protestantes, como as presbiterianas, e demais grupos que criticavam o regime de proteção estatal à Igreja Católica. O que, diga-se de passagem, não impediu tensões e conflitos entre o imperador e os bispos católicos. 

No entanto, afrouxa-se a laicidade em nome de uma suposta nação cristã. Num altar, no âmbito das religiões cristãs, supõe-se que sejam celebrados símbolos e ideias religiosas. “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, rezou o fundador do cristianismo, quando alguns oponentes encarniçados, mostrando-lhe uma moeda, perguntaram se era lícito sonegar os impostos que Roma cobrava. Mas essa postura incomoda muitos crentes. Desde 2018, alguns ex-alunos(as) e pessoas conhecidas disseram, durante conversas francas, ter deixado suas igrejas porque o altar ou o púlpito virou máquina eleitoral para eleger ou derrotar políticos. Gente oriunda de várias denominações: Assembleia de Deus, Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Batista. 

O movimento de apagamento de fronteiras legítimas entre o religioso e o político não passa despercebido pelo Poder Judiciário. Em agosto de 2020, por seis votos a um, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu que políticos não podem ser cassados por abuso de poder de autoridade religiosa. Somente o ministro Edson Fachin defendeu a criação de um novo tipo jurídico por analogia à proibição de formas ilegais de angariar votos. A decisão não impede, no entanto, que práticas de líderes religiosos sejam punidas, desde que configurem abuso de poder político ou econômico. Desde então, políticos ligados às igrejas, em especial às evangélicas, têm sido cassados quando se constata o uso dos cultos ou da influência religiosa em termos de abuso de poder político ou econômico. Debaixo de peles de ovelha, ensinam-nos a tradição oral e a bíblica, escondem-se lobos vorazes (Mateus, capítulo 7, versículo 15). 

Em maio de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) votou por manter a cassação e a inelegibilidade da prefeita e de um vereador, ambos ligados a igrejas evangélicas, da cidade de Votorantim, no interior de São Paulo. A corte eleitoral entendeu que os dois políticos utilizaram o aparato da igreja para angariar votos e influenciar eleitores durante as eleições de 2024. A prefeita Fabiola Alves da Silva (PSDB) e o vereador Alison Pereira de Camargo, Pastor Lilo (MDB), foram julgados pelo TSE por utilizar um culto na Igreja do Evangelho Quadrangular para promover candidaturas. De fato, um poderoso aparato é posto em movimento: fiéis que aceitam a autoridade religiosa do líder eclesiástico, cultos semanais, dízimos e ofertas à vontade e, dependendo da igreja, rádios, televisões, redes sociais e jornais. 

Segundo os sociólogos da religião Reginaldo Prandi, Renan Santos e Massimo Bonato, 2 a força das igrejas não está na pregação política direta, quando seus líderes pedem voto ou veto a políticos nos altares e púlpitos, mas no fato de haver uma comunidade de apoio social, um espaço de conversação, de socialização e de apoio mútuo. É dessa força que nasce a legitimidade social, mas também os problemas e as zonas cinzentas entre laicidade e abuso religioso. Dessas últimas nascem as zonas mortas, de clara influência ilegítima. Talvez seja importante separar essas zonas. 

Segundo a imprensa, a deputada estadual paulista Edna Macedo, irmã do Bispo Macedo, poderoso líder da IURD, destinou R$ 2,1 milhões em emendas parlamentares a eventos ou programas religiosos. Desse montante, R$ 1,2 milhão foi destinado ao programa Caminhada do Amor, liderado pela sobrinha, Cristiane Cardoso, filha do fundador, e por seu esposo, o bispo Renato Cardoso. Não é um repasse direto, pois envolve organizações não governamentais ligadas à igreja. Em alguns casos, cabe considerar a importância social e econômica dos eventos e das ações promovidos; em outros, porém, há fortes indícios de não legitimidade, como parece ser o caso do programa afetivo que pretende unir casais. No campo católico, as zonas cinzentas não são menores. O padre Fábio de Melo recebeu, segundo levantamentos, dinheiro de prefeituras pelo Brasil para apresentar-se em shows, muito além de apoio logístico e ajuda de custo. 

Em tempos nos quais um ministro “terrivelmente evangélico”, que representa o Poder Judiciário, vai a passeatas religiosas e acumula ilegitimamente dupla autoridade — religiosa e judiciária —, destrói o rito processual, embora com um pretexto justíssimo — as espúrias relações entre um banqueiro preso e outro ministro do STF —, pensar sobre o que se pode ou não separar é vital. Ainda mais porque quem acusou era sócio de um instituto que recebeu verbas públicas sem licitação… A forma como se investiga é tão importante quanto o conteúdo, assim como é importante separar atividades estritamente religiosas, sem interesse público e social, das emendas parlamentares e não misturar interesses pessoais com o cargo público. Detalhe: o ex-banqueiro também tinha forte contato com lideranças religiosas e deputados extremamente devotos. 

Em nossa ordem jurídica maior, a Constituição Federal, é cláusula pétrea a liberdade de culto e de religião. Mas, junto desse valor jurídico, consagra-se outro: a laicidade, um valor republicano fundamental. Proíbe-se que o Estado, sob qualquer forma, prejudique ou auxilie uma igreja ou um culto religioso, exceto em situações previstas em lei ou naquelas que envolvam direitos básicos. Talvez esteja na hora de fazer do altar e do púlpito, em especial os cristãos, lugares de sonhar, de esperançar, de promover amor, paz e justiça social. Foi assim, amoroso e pacífico, que Jesus de Nazaré começou um dos pontos mais altos de sua vida pública: o Sermão da Montanha. 

Em 3 de janeiro de 1889, segundo contam, Nietzsche estava na cidade italiana de Turim quando viu um cavalo sendo impiedosamente surrado por seu cocheiro. Compadecido, ele se acercou, abraçou-o e desabou. Não se sabe ao certo o que há de fato e de elaboração posterior nesse episódio de sua biografia, mas sabe-se que, naquele período, irrompeu sua grave crise psíquica. Nietzsche morreu em 1900. Não à toa, em sua verve provocativa, esse filósofo alemão dizia que o primeiro e último verdadeiro cristão havia morrido crucificado. 

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