O barulho estridente dos motores e o tráfego rápido e ameaçador fazem parte da rotina de convivência entre motocicletas, bicicletas, motos elétricas e carros nas ruas de Juiz de Fora. A ansiedade e o nervosismo diante do motorista/pedestre à frente são extravasados por meio da aceleração intermitente e do acionamento frenético das buzinas. Essa rotina estressante dos chamados “entregadores por aplicativo” ou “trabalhadores de delivery” representa a vanguarda operacional do capitalismo de plataforma hoje espalhado por todo o planeta.
Esse caos que mistura veículos de todos os tipos no espaço público vem se desenrolando ao longo dos últimos anos diante da sociedade local e mundial gerando perda significativa de qualidade de vida para todos, principalmente para os operadores desse tipo de serviço de entrega.
Tudo isso, para servir aos cidadãos da sociedade mundial de consumo, afinal, são eles (na verdade, nós) que exigem a pizza em casa no menor tempo possível e, também, são eles que praguejam contra a conduta dos entregadores em sua “missão salvadora” de agradar a dois deuses simultaneamente: o cidadão consumidor e o seu “patrão” pós-moderno, o algoritmo.
Sociedade assiste ao aumento de acidentes em Juiz de Fora
Enquanto o Poder Público local busca soluções para o problema, a sociedade assiste atônita ao aumento vertiginoso de acidentes com mortes e ferimentos graves de profissionais, a maioria deles jovens, que estão sendo submetidos à pressão brutal do cronômetro virtual guiado pela pressa do consumo e pela ambição desmedida por lucro.
Quem observa e se surpreende com o movimento veloz de motocicletas na Avenida Rio Branco percebe, na verdade, o reflexo local de uma revolução global promovida pelo modelo das plataformas de entrega — amplamente estudado pela literatura científica internacional — que redefiniu a nossa relação com o tempo, o trabalho e as ruas das cidades.
A pizza que consumimos em casa nunca esteve tão quente. Enquanto isso, o cidadão trabalhador de entregas nunca esteve tão estressado, espoliado e desesperado por dinheiro para o sustento da família e do seu instrumento de trabalho.
Paralelamente, a batalha das ruas segue fazendo vítimas entre idosos, crianças e regras de trânsito (sim, elas também são vítimas), com consequências graves para todos nós, partícipes da sociedade mundial de consumo.
Esforços para regulamentar e melhorar as condições de trabalho
Há esforços internacionais de regulamentação e controle desse verdadeiro caos globalizado com diferentes países abordando o tema sob diferentes óticas, sempre, claro, com a oposição ferrenha dos “donos” das plataformas de entrega.
Quanto mais se internacionaliza, mais o capitalismo se desumaniza e, dado o seu poder imensurável de capturar as nossas mentes pela ambição e pelo consumo, o que se espera é que a atuação firme do Estado transforme radicalmente essa realidade nos próximos anos. Sem ela, pouco se pode esperar de uma transformação espontânea do mercado.
Na União Europeia, vêm surgindo os melhores exemplos sobre como dar tratamento humanista e social-democrata a esse tema que trata, sim, de como controlar a ambição por lucros e, principalmente, de impedir que o trabalhador mundial seja remetido às relações de trabalho dos primórdios da Revolução Industrial.
Na esteira desse protagonismo político e intelectual europeu é curioso notar que, na virada dos séculos XX/XXI, o sociólogo italiano Domenico De Masi previu em sua sugestiva obra (O Ócio Criativo) que a transição da sociedade industrial para a era pós-industrial libertaria a humanidade do esforço mecânico e alienante. Em sua tese central, ele previa uma síntese virtuosa entre trabalho, estudo e lazer que permitiria que os ganhos de produtividade da tecnologia fossem revertidos em tempo livre para a criação intelectual, a arte e a convivência cidadã.
Infelizmente, ele subestimou a lógica fundamental do mercado e o resultado da Quarta Revolução Industrial é o que nós, em Juiz de Fora e no mundo, vivenciamos todos os dias: enquanto saboreamos nossa pizza “quentinha”, vemos o trabalhador sobre duas rodas desaparecer velozmente na esquina da rua em direção à sua próxima “grande missão” na vida.


