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16/08/2026
Valéria Costemalle
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Comer, Pertencer e Transformar: Como a alimentação se tornou a chave da sustentabilidade

Pesquisadora desenvolve metodologia inovadora para integrar educação alimentar nas escolas públicas, mostrando que o que comemos impacta tudo: da saúde ao meio ambiente
Comer, Pertencer e Transformar como a alimentação se tornou a chave da sustentabilidade em juiz de fora
Divulgação / Redes Sociais

Renata Barros não começou pensando em comida. Sua primeira formação era em Educação Física, e por sete anos ela trabalhou em escolas do Rio de Janeiro. Mas em 2016, um episódio transformou seu trajeto profissional: ao se tornar vegana, descobriu um mundo que sempre existiu, mas lhe era invisível. “Eu ficava impressionada de como era possível. Porque até eu, que era vegetariana, achava que ser vegana era uma coisa muito fora da realidade”, lembra. Vegetariana desde 2006 por influência do Greenpeace, Renata decidiu que as pessoas precisavam conhecer essa possibilidade.

Começou fazendo cursos de gastronomia, abriu uma cafeteria chamada Crisálida em Juiz de Fora em 2019, que fechou durante a pandemia, e depois se dedicou a entender algo que a intrigava profundamente: por que as pessoas não mudam seus hábitos alimentares mesmo tendo informação? A resposta a levou para um MBA em Desenvolvimento Sustentável e Economia Circular, depois para a renomada Escola de Gastronomia Francesa Le Cordon Bleu, onde ela se formou na primeira turma do curso Plant Based do Brasil. Mas foi durante o seu mestrado em Ciências da Sustentabilidade que ela finalmente encontrou seu foco: a alimentação escolar como ferramenta para transformação social e ambiental.

Eu acho que se a gente conseguisse mudar a nossa relação com a alimentação, mudava tudo”, afirma Renata, hoje pesquisadora cursando seu mestrado pela PUC Rio. E os números dão razão a ela. Segundo a FAO — Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, apenas nove variedades de culturas alimentares são responsáveis por cerca de 75% da energia alimentar vegetal consumida mundialmente. Isso ocorre em um planeta que possui mais de 30 mil espécies de plantas comestíveis e cerca de 7 mil espécies cultivadas.

O Brasil desperdiça enquanto crianças têm fome

O ponto de partida da pesquisa de Renata foi impactante: ao visitar escolas públicas na região da Gávea, no Rio de Janeiro, ela se deparou com um paradoxo perturbador.

“O desperdício de alimento é absurdo, porque as crianças não aceitam essa alimentação porque não vem acompanhada de algum tipo de educação alimentar”, descreve.

As escolas recebem cerca de 1 real e 20 centavos por refeição, quantia insuficiente não apenas para qualidade, mas para quantidade. Muitas crianças passam o fim de semana sem comer e chegam à segunda-feira faminta, buscando saciar uma fome que a merenda inadequada não consegue resolver.

O paradoxo é ainda mais complexo: enquanto escolas desperdiçam alimentos que as crianças rejeitam porque nunca foram apresentadas a eles, existem políticas públicas avançadas que permanecem apenas no papel. A Educação Alimentar e Nutricional (EAN), braço do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), já prevê integração com o currículo pedagógico, respeito às culturas alimentares locais e conexões transdisciplinares.

O Brasil é referência mundial em política pública de alimentação escolar e membro da Rede de Alimentação Escolar para Sustentabilidade (RAES), projeto da FAO. Mas “conforme você vai vendo, você percebe que na prática as coisas não funcionam”, observa Renata.

O problema não é a lei. É a implementação. Nutricionistas sobrecarregadas cuidam de várias escolas simultaneamente. Merendeiras recebem receitas prontas, sem formação culinária. Diretores lidam com falta de recursos. E as crianças, expostas cada vez menos à variedade alimentar, naturalmente rejeitam o que desconhecem, perpetuando um ciclo de desnutrição não por falta de comida, mas por falta de conexão com ela.

Pesquisadora
A pesquisadora Renata Barros (Foto: Reprodução / Redes Sociais)

Um projeto que radicalmente muda de baixo para cima

Foi diante dessa realidade que Renata desenvolveu sua metodologia: “Comer, Pertencer e Transformar”, um projeto que parte de um princípio pedagógico simples, mas revolucionário: a solução está dentro da comunidade escolar. Inspirada em Paulo Freire e na teoria da mudança, Renata criou uma trilha pedagógica onde a própria escola identifica seus desafios e encontra suas soluções.

“Eu não queria fazer um projeto pontual com as crianças que ia embora e não deixava nenhum legado”, explica.

Por isso, envolveu os verdadeiros tomadores de decisão: diretores, professores, merendeiras e nutricionistas. Cartografia social, rodas de conversa, design thinking — ferramentas que estimulam criatividade em ambientes historicamente marcados pela acomodação e desvalorização.

O projeto-piloto acontecerá em escolas públicas próximas ao Moinho, na Zona Norte de Juiz de Fora, que apoia essa iniciativa transformadora entre outras. A proposta é identificar, junto às comunidades escolares, as limitações existentes e construir soluções capazes de valorizar a alimentação de maneira integrada ao cotidiano escolar.

A alimentação que une, que cura, que transforma

Há algo profundo nas palavras finais de Renata sobre o ato de comer junto.

“Quando a gente começou a dominar o fogo e usar para preparar comida, a gente parou junto. Tinha quem fazia, botava as carnes, as coisas no fogo, e todo mundo ficava em volta esperando ficar pronto. Aí a gente começou a conversar, a contar histórias um para o outro.”

Comer junto é educação. É transmissão de conhecimento. É respeito, enquanto um fala, outro ouve. É colaboração, você não come tudo, deixa para o outro. É cidadania. Mas hoje, quantas famílias ainda conseguem isso? Cada membro come em seu horário, em sua tela. As crianças comem em pé, andando, segurando o prato sem sentar à mesa.

As estatísticas são alarmantes. Enquanto o Brasil mantém políticas de alimentação escolar entre as melhores do mundo, a industrialização da alimentação apagou culturas alimentares inteiras. Duas gerações cresceram sem aprender a cozinhar, sem experimentar a variedade que nosso território oferece. Uma alimentação saudável é mais cara, isso é indiscutível. Uma penca de banana custa 10 reais, um pacote de biscoito recheado menos de 2. Não é irresponsabilidade das famílias pobres escolher ultraprocessados: é lógica da sobrevivência.

Por isso o projeto de Renata não culpabiliza indivíduos. Busca transformar estruturas. A alimentação não é questão individual. É política. É ambiental. É de saúde pública. É de justiça social.

A urgência do momento

Renata é enfática quando fala do futuro: “A gente vai ser forçado a mudar”. As mudanças climáticas não são mais previsão: são realidade. O El Niño traz seca na Amazônia e Pantanal. Enchentes no Sul transformam plantações em água. A segurança alimentar está em alerta máximo nos estudos do IPCC. Os centros urbanos, onde vive a maior parte dos brasileiros, dependem de abastecimento frágil. “Qualquer pequeno problema nas estradas, uma chuva em outro lugar, e a gente sente”, avisa.

Mas há também esperança. Renata cita projetos como o Good Truck, que entrega alimentos , frutas e vegetais saudáveis e não processados para famílias em insegurança alimentar. Ela observa também o protagonismo das mulheres, sempre as mulheres buscando novas soluções. E acompanha crianças que começam a gostar de salada depois de participarem de uma horta. Ouve relatos de pais dizendo que agora seus filhos pedem fruta para complementar a merenda.

“Existe possibilidade de transformação, sabe? Porque comer é cultural. A gente só está com a alimentação toda errada do jeito que está porque a gente se deixou contaminar por um modelo norte-americano”, provoca. “Se é cultural, é aprendido. E se é aprendido, pode ser modificado.”

Essa é a mensagem de Renata Barros: a transformação começa na mesa. Começa quando uma criança prova uma beterraba que ela mesma plantou ou sabe como foi cultivada. Começa quando uma família se senta junta e conversa enquanto come. Começa quando uma escola percebe que alimentação não é apenas nutrição, mas educação, cultura, pertencimento, transformação.

A pergunta que fica é simples: se a alimentação é política, se alimentação impacta tudo : saúde, meio ambiente, economia, justiça social  por que ainda tratamos como coisa menor? Por que merendeiras são invisíveis? Por que crianças comem em pé? Por que políticas públicas excelentes não saem do papel?

Talvez porque precisemos de mais Renatas. Pesquisadoras que fazem um trabalho multidisciplinar, traçam soluções inovadoras que potencializam os territórios e que se recusam a fazer projetos pontuais sem pensar num legado duradouro. Que acreditam que a solução vem de baixo para cima. Que entendem que “Comer, Pertencer e Transformar” não é apenas o nome de um projeto: é a fórmula da mudança.

Para mim, a solução de sustentabilidade é transição alimentar”, conclui Renata. E diante de tudo que ela mostrou: os dados, os projetos, as histórias é difícil discordar.

A comida está em nossos pratos. A escolha está em nossas mãos.

Sobre o projeto

“Comer, Pertencer e Transformar” é uma metodologia de trilha pedagógica que está sendo desenvolvida por Renata Barros durante seu mestrado na PUC Rio. O projeto será sistematizado em uma cartilha para distribuição em escolas públicas, com versão digital para maior alcance. Atualmente em fase de implementação em escolas parceiras da região de Juiz de Fora, o projeto busca envolver nutricionistas, professores, merendeiras e gestores escolares na construção de soluções localizadas para educação alimentar e nutricional.

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