Um portal a serviço de Juiz de Fora

20/09/2026
Emerson Sena
Compartilhar Matéria

Quando a religião vira uma igreja do diabo 

“Se existe uma coisa que nos sensibiliza, é a injustiça, são os dois pesos e duas medidas.”
igreja do diabo texto Juiz de Fora
Imagem: Divulgação.

O título remete a um texto de nossos maiores escritores brasileiros e, quiçá, pensadores, Machado de Assis, que comentei na primeira coluna. Um intelectual negro que escreveu um dos contos mais interessantes, seja pela ótica da literatura, da filosofia ou da ciência da religião: A Igreja do Diabo.

Vou trazer alguns trechos para refletir sobre uma série de fatos noticiados pela grande imprensa: a família de missionários, pais e filha, pastores em Mato Grosso, investigados por usar trabalhos religiosos em presídios para ajudar facções; declarações preconceituosas feitas por Edir Macedo no especial de Natal da TV Record, em 24 de dezembro de 2022; e o documentário, em três episódios, Escravos da Fé: Os Arautos do Evangelho. Publicado pela Editora Garnier em 1884, o texto machadiano inicia-se assim: 

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem […] grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia […] dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez. 

— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo. 

A riqueza filosófico-literária é extrema. Não é possível tornar o conto simplório, o que ocorre se o lemos como se representasse uma luta interminável e tediosa entre o bem e o mal, a virtude e o vício, ou pela cafonice de perguntar se haveria uma natureza humana estruturalmente boa ou má. Seja do ponto de vista das referências históricas, culturais, sociológicas e filosóficas, seja do ponto de vista da construção gramatical, estilística ou filosófica, este e outros contos, romances e crônicas são uma rara confecção, um artefato precioso da inteligência brasileira. 

Da Ilíada, poema clássico grego, à religião cristã, o conto desliza e coloca questões clássicas, pungentes, atemporais. Em curtos quatro capítulos — “De uma ideia mirífica”, “Entre Deus e o Diabo”, “A boa-nova aos homens” e “Franjas e franjas” —, assistimos à tentativa do Diabo, em diálogo com Deus, de criar uma igreja única, na qual o avesso das virtudes — desonestidade, fraude, pecados — seja um evangelho, uma doutrina única, sem dobras e inconsistências. Organizada, com púlpito e rituais, quase um monopólio. 

Pensaria o Diabo: se os que se mostram religiosos, rezam e oram, mas, às furtivas ou mesmo às claras, promovem preconceitos e crimes, pudessem fazer isso de forma aberta, tranquila, organizada, sem duplicidade, seria a glória demoníaca. No conto, lemos: “A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.” Mas, um dia, tempos depois, “[…] notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes”. Muitos “[…] avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias […]”. Encafifado, o Tinhoso investigou. Ficou assombrado.  

Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho, carinhoso apelido, brinda-nos com um parágrafo curto e oceânico: do Cairo à Calábria, do catolicismo ao islamismo, os adeptos da Igreja do Diabo rompem com a religião criada por Belzebu e voltam a praticar as velhas e boas virtudes. Quando confrontados, cínicos, negavam. Desolado, o “velho retórico”: 

Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. […] disse-lhe: 

— Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana. 

A configuração dialogal, mas amistosa, entre dois seres imortais, Deus e o Diabo, talvez remeta a outra, escrita séculos antes: o Livro de Jó, um clássico bíblico. Neste, o diálogo, ao contrário, é forte, áspero e intrigante. Uma aposta sobre o servo mais fiel. Permaneceria Jó, um justo, se tudo o que ele mais amasse e merecesse fosse destruído? Satanás duvidou. Deus topou a aposta. Filhos, bens e saúde lhe foram esmagados, calcinados, arrancados — daquele que sempre havia sido um bom homem. Os interrogantes que se levantam dessa abertura ultrapassam “vontade divina”, “castigo” ou “mistérios”.  

Não menores interrogações podem sair desse conto machadiano. Do ponto de vista de dois seres que não morrem, a história humana vai parecer uma eterna contradição. Para sair da simples constatação, que se torna fácil, um lamento e, assim, mata o pensar, nossa faculdade mais preciosa, podemos recorrer a interpretações — nem celestiais nem demoníacas, mas demasiadamente humanas — para fazer a conversa andar e o pensamento galgar melhores perspectivas. 

A fina ironia machadiana — socrática, nietzschiana e tropical — se faz na narrativa. Um conto sobre a hipocrisia ou sobre lobos em pele de ovelha soaria gasto, óbvio. Caminho poeirento. A inversão machadiana cria algo novo: falar dos vazios da religião que se pratica a altos brados nas praças, mas que é furada como uma peneira — e, desses vazios, jorram patifarias. 

Mas e quando a religião se torna uma igreja diabólica? Vamos aos três casos aos quais fiz alusão. Todos fariam o velho cornudo sorrir orgulhoso. Uma família devota, que levava a Bíblia aos presídios — ó, santa missão! —, mas exibia, orgulhosa e vaidosamente, fuzis, dinheiro e carros de luxo. Fazia um pastoreio infernal ao acobertar e participar dos crimes do Comando Vermelho. 

O líder da Universal, que não se encontra mais no Brasil, afirmou, em um programa de Natal, em 24 de dezembro de 2022, transmitido pela TV Record, que ninguém nasce ladrão, homossexual ou lésbica. O Ministério Público Federal (MPF) e grupos de defesa dos direitos LGBTQIA+ entraram com uma ação contra o bispo e a emissora. Processados, receberam, neste setembro infernal, uma sentença do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que determinou o pagamento de R$ 1,5 milhão por danos morais coletivos devido às declarações, julgadas homofóbicas. 

Em exibição na plataforma HBO Max, o documentário Escravos da Fé, investiga denúncias de abusos dentro de uma associação católica, os Arautos do Evangelho. Uma seita católica, pode-se dizer, com culto extremo ao líder, disciplinamento vexatório, grupo poderosíssimo. A obra gerou forte repercussão e uma intensa batalha judicial antes de sua estreia, em março de 2026. Finalmente liberada por decisão do STF, traz depoimentos de ex-membros e mães de ex-internos tão dolorosos e pungentes. Fariam o Diabo machadiano chorar junto. 

Será que, em uma Igreja do Diabo, se praticaria, ainda que às escondidas, sob capas de algodão e palha, as virtudes de veludo — amor, senso de vergonha e de justiça. As perguntas, se bem-feitas, (re)abrem a conversação para mais uma jornada de pedir e dar razões, tão demasiadamente humana. É a nossa terceira margem, entre o céu e a terra. Deuses e demônios, bons ou ruins, não podem fazer por nós, a caminhada. Ao final, teremos de arcar com os fardos ou os louros que nossas mãos prepararam. 

Platão afirmou que conhecimento é crença verdadeira bem justificada, por meio de raciocínios válidos e legítimos. Por outro lado, ter fé — acreditar, numa acepção simples — é uma experiência cotidiana que nos vem de paragens distantes, cujas origens mergulham em nas antropotécnicas. Não há como viver se, a todo tempo, surgem perguntas e dúvidas, incessantes 

Mas, pensar – esse exercício diabólico-celestial – faz-nos praticar as virtudes da razão. É um esforço coletivo, que exige tempo e desnaturalizações. E isso só é possível se ousamos imaginar mundos melhores – e a literatura nos ajuda – e se ousamos ver o que há sob capas de veludo. Há  aqueles que praticam erros e cobram virtudes do outro. Um deles carrega a bandeira do Brasil, finge que nunca esteve, nem pediu ajuda pessoal a banqueiro preso, tomador de recursos públicos. Os meteu no bolso e, com eles, pagou a ajuda pedida. Não estão sozinhos, há mais gente. Se existe uma coisa que nos sensibiliza, é a injustiça, são os dois pesos e duas medidas. Uma Igreja do Diabo, quis o anjo infernal, poderia, ao menos, resolver a duplicidade. Não haveria cinismo e cara dupla. Mas, a iniciativa diabólica não foi tão bem-sucedida. E aqui estamos, tentando entender melhor e, assim, cometer menos erros.

Folha JF - Um portal a serviço de Juiz de Fora

Siga o Folha JF

Fique por dentro de tudo que acontece em Juiz de Fora, siga o nosso instagram @folhajf

Últimas notícias:

Primavera começa nesta terça-feira (22), com máxima de 28°C e possibilidade de chuva; temperatura deve cair nos dias seguintes
Idosa sofreu traumatismo craniano e precisou permanecer internada em observação no HPS. Suspeito, de 34 anos, apresentou outra versão sobre a ocorrência
Sessão gratuita na terça-feira (22), no Cinema Alameda, reúne o longa “O Homem que Matou John Wayne” e o curta “Asa Real”, seguidos de debate com diretor e integrantes das produções
20ª Primavera dos Museus acontece entre 21 e 27 de setembro e terá visitas mediadas, atividades em Libras, oficina tátil, música e ações educativas
A diferença entre namoro qualificado, união estável e casamento…