Um jovem de 19 anos morreu na noite deste domingo (4) após ser atropelado por uma viatura policial durante uma perseguição em São João Nepomuceno, na Zona da Mata. Mikael Philipe conduzia uma motocicleta e seguia em direção ao distrito de Roça Grande quando caiu em uma estrada rural e foi atingido pelo veículo da Polícia Militar, segundo o boletim de ocorrência.
O caso apresenta questionamentos da família sobre as circunstâncias da morte e sobre os procedimentos adotados após o acidente. Por isso, o Folha JF apresenta separadamente a versão registrada no boletim de ocorrência e o posicionamento divulgado pelos familiares. A Polícia Civil foi procurada para informar como será conduzida a investigação, mas não respondeu até a publicação desta matéria.
O que diz o boletim de ocorrência
Segundo o registro policial, Mikael trafegava de moto acompanhado de outro motociclista pelas ruas de São João Nepomuceno quando ambos foram avistados por uma equipe da PM.
O boletim relata que as motocicletas estavam sem placas e sem iluminação traseira, o que teria motivado os policiais a se aproximarem para realizar uma abordagem e fiscalização.
Ainda conforme o documento, ao perceberem a aproximação da viatura, os motociclistas fugiram e teve início uma perseguição.
O registro afirma que um dos policiais não conseguiu acionar a sirene porque o dispositivo estaria em uma posição de difícil acesso, abaixo do banco do motorista. A equipe teria utilizado faróis e buzina para tentar sinalizar a abordagem.
Segundo a versão policial, os dois motociclistas continuaram pelas ruas da cidade em velocidade elevada até entrarem em uma estrada rural de acesso ao distrito de Roça Grande.
Mikael caiu e foi atingido pela viatura, diz registro
O boletim descreve a estrada como de terra e informa que o piso estava molhado e escorregadio. Em determinado momento, os dois motociclistas teriam seguido por caminhos diferentes, e a viatura continuou acompanhando Mikael.
De acordo com o registro, ao tentar fazer uma curva em alta velocidade, o jovem perdeu o controle da motocicleta e caiu.
O policial que dirigia a viatura afirmou ter acionado os freios para tentar evitar o atropelamento, mas não conseguiu parar o veículo a tempo. Após atingir Mikael, a viatura teria parado somente depois de colidir contra um barranco.
Os militares relataram que prestaram os primeiros socorros e acionaram o Samu.
O boletim registra ainda que Mikael não possuía habilitação e menciona que ele teria o costume de realizar manobras conhecidas como “grau”. Essas informações integram a versão registrada na ocorrência e não determinam, por si só, as responsabilidades pelo acidente, que deverão ser apuradas.
O outro motociclista seria, segundo as informações iniciais registradas pela PM, um adolescente também sem habilitação.
Local foi alterado antes da perícia
Outro ponto registrado no próprio boletim é que o local do acidente não foi integralmente preservado.
Segundo a justificativa apresentada na ocorrência, houve necessidade de movimentar veículos para possibilitar o atendimento da vítima e liberar o trânsito.
A alteração do cenário é um dos pontos questionados pelos familiares de Mikael, que divulgaram um posicionamento público após a morte.
Família contesta pontos do registro policial
Nas redes sociais, familiares de Mikael questionaram a versão apresentada no boletim e pediram uma investigação detalhada sobre a atuação dos policiais envolvidos.
Entre os pontos levantados está a situação da iluminação da motocicleta. O boletim afirma que os veículos estavam sem iluminação traseira, enquanto os familiares sustentam que a moto utilizada por Mikael estava com o farol funcionando.
A família também afirma que não conseguiu ter acesso ao local onde ocorreu o atropelamento e questiona as alterações feitas antes da realização dos trabalhos periciais.
Os familiares destacaram ainda que Mikael não possuía antecedentes criminais e pediram que as circunstâncias da morte sejam esclarecidas.
Entre as providências solicitadas estão a preservação dos elementos de prova, acesso aos autos da investigação e aos laudos periciais, além do acompanhamento do caso pelo Ministério Público.
Polícia Civil deverá investigar circunstâncias da morte
A apuração deverá esclarecer a dinâmica da perseguição, as condições em que ocorreu o atropelamento, a atuação dos policiais e os procedimentos adotados no local após o acidente.
O Folha JF entrou em contato com a Polícia Civil para obter informações sobre a investigação e saber quais providências foram adotadas, mas não recebeu resposta até a publicação desta matéria.
O espaço permanece aberto para manifestação da Polícia Civil, da Polícia Militar e demais envolvidos.