Um portal a serviço de Juiz de Fora

11/10/2026
Valéria Costemalle
Compartilhar Matéria

7 em cada 10 eleitos para o Congresso têm baixa adesão à pauta ambiental; O paradoxo é que a falta de prevenção custa caro aos cofres públicos

Dos 594 parlamentares que deverão compor o Congresso, 409, ou 68,9%, estão nas faixas Baixa ou Muito Baixa de convergência ambiental
pauta ambiental congresso nacional
Imagem gerada por Inteligência Artificial

A nova composição do Congresso Nacional chega à 58ª Legislatura (2027–2030) em um momento em que a emergência climática já deixou de ser uma projeção distante. Secas, enchentes, deslizamentos, ondas de calor e incêndios pressionam cidades, governos e populações, enquanto o país ainda enfrenta dificuldades para transformar a prevenção em prioridade permanente da gestão pública.

É nesse contexto que ganha relevância o relatório “Mapa do Novo Congresso: Perfil Ambiental da 58ª Legislatura”, elaborado pelo Observatório do Clima. O estudo utiliza prioritariamente dados do Farol Verde, plataforma do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), que calcula o Índice de Convergência Ambiental (ICAt) a partir da relação entre a atuação parlamentar e a agenda socioambiental. Quando não há dados individuais suficientes, o levantamento recorre a médias partidárias e a informações sobre a trajetória dos parlamentares. O próprio relatório ressalta que a classificação partidária não permite prever automaticamente o voto de cada parlamentar.

O diagnóstico chama atenção. Dos 594 parlamentares que deverão compor o Congresso, 409, ou 68,9%, estão nas faixas Baixa ou Muito Baixa de convergência ambiental. O resultado, entretanto, não é uniforme entre as duas Casas. No Senado Federal, são 64 dos 81 senadores, ou 79%, nas duas faixas inferiores. Na Câmara dos Deputados, são 345 dos 513 deputados, ou 67,3%.

No Senado, o cenário se torna ainda mais expressivo quando comparado à legislatura anterior: as faixas Baixa e Muito Baixa passam de 58 para 64 cadeiras. Na Câmara, sobem de 63% para 67,3%. O relatório também registra o crescimento da bancada do PL, que passa a ocupar 121 cadeiras na Câmara e 28 no Senado.

Os números não significam, por si só, que o próximo Congresso será necessariamente contrário à proteção ambiental. Significam, porém, que a correlação de forças poderá tornar mais difícil a aprovação de determinadas políticas de proteção, restauração, adaptação e prevenção. Essa é uma questão política, mas também de gestão.

A razão é simples: quando a prevenção perde espaço, o poder público tende a ser chamado a agir quando o dano já ocorreu. E reparar é, frequentemente, mais caro do que evitar.

Dados oficiais ajudam a dimensionar essa conta. Segundo o Ministério do Planejamento, entre 2017 e junho de 2025, as despesas federais do programa de Gestão de Riscos e de Desastres representaram entre 0,01% e 0,06% do PIB ao ano. Em 2024, o orçamento atualizado do programa chegou a aproximadamente R$ 6,99 bilhões, dos quais cerca de R$ 4,97 bilhões foram pagos. O próprio governo ressalta que esses valores não representam a totalidade dos gastos federais relacionados ao clima e aos desastres.

Os prejuízos provocados pelos eventos extremos são ainda maiores. Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) apontam que, em 2025, eventos hidrometeorológicos provocaram aproximadamente R$ 2,9 bilhões em danos materiais e R$ 3,9 bilhões em perdas econômicas. Em 2024, apenas os eventos hidrológicos, movimentos de massa e chuvas intensas registrados no sistema oficial de informações sobre desastres somaram mais de R$ 10,2 bilhões em perdas econômicas públicas e privadas, além de 201 mortes, mais de 145 mil pessoas desabrigadas e mais de 1 milhão de desalojadas.

Há, portanto, uma dimensão fiscal que não pode ser ignorada. A crise climática não produz apenas impactos ambientais e sociais. Ela produz também despesas emergenciais, destruição de infraestrutura, interrupção de serviços, perdas econômicas e necessidade de reconstrução.

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) reforça essa preocupação. Ao analisar a política federal de prevenção e redução dos efeitos de desastres entre 2012 e 2024, o Tribunal identificou aproximadamente R$ 8,87 bilhões investidos e apontou problemas de governança, obras paralisadas ou atrasadas, fragilidades no mapeamento de riscos e dificuldades de coordenação entre os diferentes níveis de governo. A avaliação do TCU é particularmente importante porque indica que o Brasil ainda opera, em grande medida, sob uma lógica reativa, concentrada na resposta e na reconstrução.

Isso não significa que todo gasto posterior a um desastre poderia ser evitado por meio de prevenção. Mas evidencia um risco de gestão: quanto menor a capacidade de antecipar, reduzir vulnerabilidades e preparar territórios, maior pode ser a pressão sobre os recursos públicos quando o evento extremo acontece. O próprio TCU aponta que investimentos preventivos podem reduzir despesas posteriores de resposta e reconstrução e aumentar a eficiência e a previsibilidade da ação estatal.

Juiz de Fora: quando o desastre chega ao orçamento

A tragédia provocada pelas chuvas de fevereiro de 2026 em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, tornou essa relação entre emergência climática, vulnerabilidade urbana e orçamento público particularmente concreta. O desastre provocou mortes, destruição de moradias, interdição de vias e danos à infraestrutura, impondo ao município uma extensa agenda de recuperação.

A dimensão financeira da resposta pode ser observada nos registros oficiais. Em março de 2026, foi anunciado um pacote de aproximadamente R$ 405 milhões para projetos de recuperação dos danos causados pelas chuvas em Juiz de Fora, incluindo intervenções em encostas e obras de macrodrenagem. É importante, contudo, fazer uma distinção fundamental: valor anunciado não é necessariamente valor transferido, empenhado ou efetivamente pago.

A recuperação da Estrada Engenheiro Gentil Forn ilustra outro aspecto da conta. Interditada em consequência das chuvas, a via passou a exigir uma solução de engenharia estimada em R$ 90,97 milhões. A proposta apresentada prevê R$ 86,42 milhões em financiamento e R$ 4,55 milhões de contrapartida municipal. Trata-se de uma operação de crédito destinada a viabilizar a obra, e não de um repasse já integralmente recebido ou de uma despesa concluída.

A situação habitacional acrescenta outra frente de custos. A reconstrução envolve imóveis destruídos ou comprometidos, avaliação de riscos geológicos, retirada de famílias de áreas inseguras, remoção de escombros e demolição de edificações condenadas. Em julho de 2026, a Câmara Municipal registrou a aprovação da Lei nº 15.451, que institui uma política municipal de intervenção emergencial em áreas atingidas por eventos climáticos e estabelece medidas para a demolição de edificações comprometidas, remoção de escombros e mitigação de riscos.

A questão fiscal, portanto, não termina quando a chuva passa. O desastre desloca recursos, equipes técnicas, capacidade administrativa e prioridades de governo para a reconstrução.

Isso não significa que todo investimento de reconstrução retire automaticamente dinheiro de outra política pública. Parte dos recursos pode vir de transferências extraordinárias, financiamentos ou dotações específicas. Mas, quando o município precisa aportar contrapartidas, assumir dívidas, mobilizar equipes e rever o orçamento, há efeitos concretos sobre o planejamento e sobre a margem disponível para outras iniciativas.

É justamente aí que aparece o paradoxo: a política ambiental é frequentemente tratada como custo, quando a ausência dela pode gerar custos muito maiores.

Uma obra de drenagem pode parecer uma despesa. A recuperação de uma encosta pode parecer uma despesa. A recuperação de uma mata ciliar, a preservação de uma área de risco, o monitoramento meteorológico, o planejamento territorial e a implantação de sistemas de alerta podem parecer despesas.

Mas reconstruir uma ponte destruída, recuperar uma estrada interditada, demolir casas condenadas, remover famílias, reconstruir equipamentos públicos e recuperar infraestrutura depois de um desastre também custa. E, muitas vezes, custa mais. O próprio Folha JF trouxe um dado que corrobora isso: a Prefeitura de Juiz de Fora estima gastar cerca de R$ 29 milhões com demolições de imóveis em áreas de risco extremo e atingidas pela tragédia de fevereiro.

A diferença é que o investimento preventivo acontece antes da tragédia e, por isso, sua importância costuma ser menos visível politicamente. Já a reconstrução aparece quando o dano já está diante dos olhos da população.

Educação e sustentabilidade também são prevenção

É nesse ponto que educação e sustentabilidade deixam de ser temas periféricos.

Educar para a sustentabilidade, diante da emergência climática, não significa apenas ensinar conceitos ambientais ou estimular comportamentos individuais. Significa formar cidadãos capazes de compreender o território em que vivem, reconhecer riscos, interpretar informações científicas e participar das decisões que definem onde e como as cidades crescem.

Significa também preparar gestores públicos, profissionais, pesquisadores, estudantes e comunidades para trabalhar de forma integrada. A emergência climática exige políticas que articulem meio ambiente, planejamento urbano, saúde, defesa civil, infraestrutura, recursos hídricos, educação e assistência social. Nenhum desses campos consegue responder sozinho à complexidade dos eventos extremos.

A mesma lógica vale para a relação entre Estado e sociedade. Empresas, bancos, organizações não governamentais, universidades, instituições de pesquisa, estudantes e sociedade civil precisam participar da construção de soluções. Não se trata de transferir ao setor privado ou aos cidadãos uma responsabilidade que é do Estado, mas de reconhecer que a prevenção de riscos e a adaptação climática exigem capacidade técnica, conhecimento científico, financiamento e cooperação institucional.

O novo Congresso terá, portanto, uma escolha que ultrapassa a polarização entre desenvolvimento e preservação. A questão é saber que modelo de desenvolvimento será capaz de reduzir riscos em vez de acumulá-los.

Preservar não é apenas proteger a natureza. É também proteger vidas, infraestrutura e orçamento público.

Restaurar não é apenas recuperar um ecossistema. É reduzir vulnerabilidades futuras.

Prevenir não é apenas evitar um desastre. É evitar que uma emergência se transforme em uma conta pública ainda maior.

E educar para a sustentabilidade não é apenas formar cidadãos mais conscientes. É formar uma sociedade capaz de reconhecer riscos antes que eles se transformem em perdas.

A 58ª Legislatura começará seu mandato diante de uma realidade que já está posta. A pergunta, portanto, não é mais se o Brasil enfrentará eventos climáticos extremos, mas quanto o país ainda poderá gastar para continuar chegando depois que o desastre acontece.

Folha JF - Um portal a serviço de Juiz de Fora

Siga o Folha JF

Fique por dentro de tudo que acontece em Juiz de Fora, siga o nosso instagram @folhajf

Últimas notícias:

Dos 594 parlamentares que deverão compor o Congresso, 409, ou 68,9%, estão nas faixas Baixa ou Muito Baixa de convergência ambiental
A UBS Teixeiras, em Juiz de Fora, está atualmente sem dois dos seis médicos que deveriam atuar na unidade
Cerca de 9,5 mil pessoas, entre servidores ativos, aposentados, pensionistas e dependentes, podem aderir ao novo plano
Segundo a administração municipal, R$ 43,4 milhões serão pagos na próxima terça-feira (13)
Programação especial ocorre de sábado (10) a segunda-feira (12), com exibições às 13h10 e ingressos distribuídos meia hora antes de cada sessão